quarta-feira, 27 de janeiro de 2010

Gladiador (2000) - Gestos Característicos dos Personagens

Quem assistiu ao filme certamente irá lembrar-se do que vou dizer. O que Commodus faz várias vezes durante o filme? O que Proximo faz repetidamente durante o filme? O que Maximus sempre faz antes de todo e qualquer combate?

Isto parece ser simples de responder e muito mais fácil de se fazer. Mas não se engane, é só aparência, você poderá assistir centenas de filmes e notará que, mesmo assim, grandes roteiristas não conseguem encontrar um gesto pequeno e simples que caracterize seu personagem com intensidade e originalidade.

Respondendo as perguntas iniciais. No segundo tratamento do roteiro, Commodus se olha no espelho pelo menos duas vezes. É pouco, é banal, e por isso foi retirado do filme. Por outro lado, aqui, neste momento no qual escrevo, eu não me lembro do que Commodus faz no filme repetidamente (não vale suas elocubrações e conspirações), estou falando de um gesto simples e claro que marca o personagem. Teste sua memória e se assistiu recentemente ao filme, responda.

Proximo, muitas vezes em que vai falar algo, sobretudo quando está entusiasmado, olha para cima, como em transe. Não me lembro disso no roteiro. Ou seja, se o roteirista não o faz, certamente um bom ator irá colocar estas TAG's nos personagens.

Por fim, o caso mais excepcional e poderoso. O que Maximus faz antes de cada e todo combate? Muito amigos com os quais conversei, mesmo após assistirmos o filme, não conseguem responder e precisam rever as cenas. Só então percebem o poder daquilo (que já fora apreendido inconscientemente, o que dá poder ao personagem do Gladiador).

Sempre que Máximus vai entrar em combate ele pega um pouco de terra do chão e a esmaga entre as mãos, em algumas vezes ele sente o cheiro da terra, e se ergue pronto para o combate. Isto não está na versão do roteiro que eu li. (Por isso repito, se um roteirista não coloca isto no roteiro, um ator minimamente competente irá fazê-lo).

Esta relação com a terra é muito comum e forte, posso dizer que é ancestral e extremamente poderosa, afinal, dentro de muitas tradições religiosas é dela, da terra, que somos feitos e é para ela que voltaremos (lembrem do mote de Proximo, "Somos apenas pó e sombras). Se você assistir ...E o Vento Levou irá ver que o pai de Scarlett no começo do filme faz todo um discurso sobre a terra, que no caso do Gladiador, toda a importância da relação de Maximus com a terra é resumida em um simples gesto.

Sendo assim, todas as vezes que assistirem um filme, não se esqueçam, "Deus mora nos detalhes".


 








 

  
Antes de concluir, mais uma coisa. 

Depois dos romanos reencenarem a Segunda Batalha de Cartago, quando quando o Imperador desce de seu camarote e quer conhecer o Espanhol. Maximus olha para a areia e vê a ponta de um flecha, ele abaixa, - como se saudasse Commodus - e de dentro do chão retira uma flecha, não apenas uma arma, mas símbolo de poder e vingança. Vingança esta que será retardada pela presença do menino, o qual já comentamos na análise anterior. Vale lembrar que se a cena analisada anteriormente, a das celas, que aconteceria posteriormente, não tivesse sido colocada anteriormente, não seria possível utilizar o menino como uma forma de atrasar a vingança de Maximus.

Segue o  trecho do filme em questão.





Espero que isto tenha sido útil

Abraço a todos.

3 comentários:

Valéria Olivetti disse...

Eu li uma matéria no jornal na época em que o filme saiu nos cinemas dizendo que quando eles começaram a filmar, não havia um roteiro pronto, apenas um argumento. O próprio Russell Crowe e o diretor Ridley Scott teriam criado muitas cenas por conta própria ao longo das filmagens(segundo a matéria que li, não conferi o roteiro). Portanto,se isto for verdade, acho natural que haja muitos detalhes que o roteirista não tenha escrito, não é mesmo?

Daniel disse...

Olá Valéria...
Então, eu tenho pesquisado bastante sobre o Gladiador. Inclusive li um texto de um tal de Jon Solomon, o artigo se chama; "Gladiator from Screenplay to Screen" e é o primeiro capítulo do livro organizado por Martin M Winkler(org.). "Gladiator: Film and History". Blackwell Publishing. 2004.

Este ensaio confirma a minha tese, hehehe, foram apenas dois tratamentos mesmo, ou seja, temos acesso aos roteiros e ao seu produto final o filme.

O que eu queria dizer ao apontar a questão dos gestos é de como são, digamos, tênues estes limites da criação. Eu acredito que os roteiristas devam ter um certo desapego com seu texto e aceitarem mudanças e acho isto extremamente positivo, mas ele também sempre pode ir além, este simples gesto de tocar ou pegar a terra ganha uma dimensão gigantesca e pode ter sido sugestão tanto do Crowe, do Ridley Scoot, do próprio roteirista (mas que não se encontra no roteiro). Pode ter sido (como acho que foi, puro improviso, heheheheh)
Mas enfim, creio que os roteiristas devam prestar atenção neste tipo de detalhe quando escrevem.

Valéria Olivetti disse...

Concordo plenamente, esses detalhes é que dão o tempero do filme. E muitos roteiristas ignoram mesmo o poder das pequenas ações!