segunda-feira, 12 de abril de 2010

Um Sonho de Liberdade (The Shawshank Redemption) 1994

        



RED
Hope is a dangerous thing. 
 Hope can drive a man insane.


Direção: Frank Darabont

Roteiro: Frank Darabont adaptdado do conto "Rita Hayworth and Shawshank Redemption" de Stephen King

Elenco: Andy Dufresne (Tim Robbins), Ellis Boyd 'Red' Redding (Morgan Freeman), Warden Norton (Bob Gunton), Heywood (William Sadler), Captain Hadley (Clancy Brown), outros.

Sempre que for ler algum livro sobre roteiros, não tenha a menor dúvida, assista aos filmes analisados no livro. Isto é bastante enriquecedor, não percam estas oportunidades jamais. É sempre bom poder analisar um roteiro que já fora axaustivamente estudado, é incrível como isso aguça nossa percepção para o estudo e a prática. Atualmente estou lendo o livro do Syd Field, Como Resolver Problemas de Roteiro, e neste livro ele cita Um Sonho de Liberdade constantemente.

Não vou aqui fazer uma resenha do livro, mas já recomendo a todos que querem começar a estudar roteiros a lerem todos os livros do Field, são básicos, são fundamentais, não levem em conta quando alguém disser que o Syd Field está superado, isto tudo é bobagem... leiam e tirem suas próprias conclusões.

Assim, já deixo aqui recomendado, quando conseguirem este livro - que está esgotado e difícil de achar em sebos - já estejam preparados, com Thelma & Louisie nas mãos e Um Sonho de Liberdade, garanto que valerá o esforço.

Outro aspecto interesante no que diz respeito a este filme é que ele é considerado o melhor filme na opinião dos usuários do IMDB (Veja a lista dos 250 melhores filmes aqui!)

Por fim, só para não dizer que não falei do filme, prestem muita atenção na apresentação, ou nos termos fieldinianos, no primeiro ato. Vejam como se dá a apresentação de Andy e depois de Red, a economia da informação, nos flashbacks, na quantidade de motivos mobilizados, estes qeu serão retomados no segundo e terceiro ato.

Certo, você não sabe o que é um motivo? Não, não é a motivação do personagem... motivo são elementos mobilizados na trama e voltarão a desempenhar um 'papel' mais à frente.

Por exemplo; quando Norton, o diretor de Shawshank se aproxima de Andy para que Andy comece a fazer as contas de Norton, Norton vê Andy lendo a Bília e lhe diz que a salvação está ali dentro. Andy concorda.

Ao final do filme, Andy, depois de fugir, deixa a Bíblia dentro do cofre de Norton, com uma mensagem, "Querido Warde, Você tem razão, a salvação está aqui dentro!" Norton abre a Bíblia e vê um buraco em forma de martelo, onde Andy guardava o martelinho com o qual escavou seu túnel, ou sua fuga.

Um roteirista menos atento, faria simplesmente uma série de referências à Bíblia, apenas como intuíto de caracterizar o diretor. Vejam como tudo no filme é fechadinho. Brooks cria um corvo desde filhote, anos depois, quando está para deixar o presídio o corvo reaparece, já crescido e é solto por Brooks, estabelecendo assim uma metáfora entre as duas situações. É comum ser dito a respeito de pássaros criados em cativeiros que eles, depois de crescidos, não sobreviveriam se fossem libertados, e é justamente esta a situação de Brooks, um homem que passou preso cinquenta anos de sua vida, certamente não conseguiria sobreviver fora da prisão.

Outro motivo interessante é o do 'laranja' construído por Andy para lavar o dinheiro da corrupção de Norton.


                    RED
          Quem é ele?

                    ANDY
          Peter Stevens

                    RED
          Quem?

                    ANDY
          Um parceiro invisível, silencioso. 
          Ele é o culpado. O homem das 
          contas bancarias. É onde começa 
          o processo de filtragem. 
          Se alguém investigar o dinheiro 
          tudo o que irão encontrar será ele.

                    RED
          Yeah, ok, mas quem diabos ele é?

                    ANDY
          Um fantasma, uma aparição. 
          Primo de segundo grau de Harvey, o coelho.
            (off do olhar de Red)
          Eu o conjurei do ar. Ele 
          não existe... a não ser 
          no papel.

                    RED
          Você não pode criar uma pessoa do nada.

                    ANDY
          Claro que posso, se você souber como
          o sistema funciona, e onde estão
          as brechas. É impressionante o
          que você pode fazer pelo correio.
          O Srº Stevens tem certidão de nascimento,
          seguro social, carteira de motorista.
          Se eles decidirem investigar
          as contas eles irão dar de cara
          com uma criação da minha cabeça.



Mais uma vez, este homem fictício poderia ser apenas e simplesmente mais um elemento a comprovar as capacidades de Andy, e poderia ter ficado apenas nisso. Mas não, mais tarde o roteirista retoma o motivo e faz com que Andy, depois de fugir da prisão, adote a identidade do 'laranja' para poder sacar o dinheiro do mesmo e reconstruir sua vida no México.

Caso se interesse mais pela questão, recomendo a leitura de um texto de Bóris Tomachévski, intitulado "Temática" presente na coletânea "Teoria da Literatura II", organizada por Tzvetan Todórov (Lisboa, 1989).

Neste texto, entre outras questões, Tomachévski nos diz que se um prego aparece na história, o protagonista deverá se enforcar nele, se uma arma aparece em determinado momento da narrativa e tem destaque nela, certamente será a arma com a qual o protagonista ou o antagonista serão mortos.

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