domingo, 24 de janeiro de 2010

"Laís Bodanzky - Exibir um filme no Brasil é tão difícil quanto realizar um filme"




Laís Bodanzky
Criadora do projeto Cine Tela Brasil, que leva longas a lugares onde eles nunca seriam vistos, a cineasta conta o que aprendeu lidando com quem está em frente à tela

 
Gilberto Amendola
gilberto.amendola@grupoestado.com.br 

Desde de 1996, a cineasta Laís Bodanzky, 40 anos, tem realizado sessões de cinema para pessoas que nunca tinham pisado em uma sala de exibição. Com o projeto Cine Tela Brasil (que, no início, chamava-se Mambembe), ela já percorreu quase 300 cidades e promoveu mais de 3 mil sessões. Só em 2009, cerca de 200 mil expectadores tiveram a oportunidade de assistir a um longa nacional. Nesta entrevista, concedida em sua produtora há duas semanas, a diretora de Chega de Saudade (2008) também fala sobre seu novo filme, As Melhores Coisas do Mundo, previsto para abril de 2010. Laís ainda diz ter ‘medo’ da televisão e defende o cinema popular.



A ideia do Cine Tela Brasil era chegar a lugares distantes do País, onde o cinema nacional não está tão presente?

A gente não tinha isso claro no começo, sabe? Era para exibir nossos filmes e os filmes dos colegas. Era a vontade de fugir do mundo das mostras e dos festivais - que de certa forma atendem sempre ao mesmo público. A gente quis furar esse bloqueio. A ideia é levar o cinema brasileiro para quem não tem acesso. Para quem mora onde não tem sala de cinema ou para quem não tem dinheiro para pagar ingresso.



Nem precisava ir tão longe, não é? Quase não tem sala de cinema na periferia de São Paulo.

Foi o que a gente viu. Não precisa se afastar muito para entender isso. Fiz apresentações na Praça da Sé, em Santa Cecília e naqueles arredores. A maioria dos presentes nunca tinha pisado em um cinema. Nas escolas, quando perguntamos quem nunca viu um filme no cinema, mais da metade levanta a mão.



Aí vem um filme como ‘Avatar’ e ocupa mais da metade das salas da cidade...

A relação ‘público e sala de cinema’ é uma piada. Mas tem espaço para crescer, sou otimista. Tem que ter uma política cinematográfica, não adianta eu achar que vou dar conta do País inteiro. Mas o Cine Tela Brasil é um bom modelo. Exibir um filme é tão difícil quanto realizar um filme.



Foram mais de 3 mil sessões, você deve ter colecionado reações emocionadas e incríveis.

É muito comum as pessoas virem falar com a gente no final dos filmes. Elas quase sempre contam histórias que têm a ver com o que acabaram de assistir. Tem gente que se arruma, coloca a melhor roupa, e leva toda a família para a sessão. Exibimos filmes até em um assentamento de sem-terra, onde tinha acabado de acontecer um confronto e uma chacina. Foi uma experiência muito forte.



Como são essas sessões?

As sessões são participativas. Não é o mesmo silêncio da maioria das salas de cinema. As crianças aplaudem e tal. Elas têm sempre muita energia. As pessoas agradecem porque o projeto faz com que elas ocupem o espaço público.



Existe uma preocupação em exibir filmes com mensagem?

Ali percebo que o cinema vai além do entretenimento. Passa pela cidadania e a educação. Os professores podem, por exemplo, trabalhar o filme em sala de aula. Mas não separo entretenimento e cultura. Para mim, é uma coisa só.

O seu projeto contempla oficinas de cinema também. Vocês pedem para os jovens filmarem...

Sim, e sabe o que a gente descobriu? Que a realidade na periferia não é só violência. Os jovens que moram nessas comunidades não nos trazem histórias de morte e tiros. Ao contrário, a periferia está cheia de histórias de amor.

Acha que os filmes brasileiros estão conseguindo dialogar com esse público?

Como recebemos muita gente em nossas sessões, não colocamos filmes radicais ou de experimentação. Buscamos filmes que esse público quis ver no cinema, mas não conseguiu. Mesmo que não exista um cinema em determinada cidade, os moradores sabem o que está acontecendo e sendo exibido nas grandes capitais.

Essa experiência de levar cinema para as pessoas tem influenciado os seus filmes?

Muito. Caiu a ficha que, se a mensagem não chega ao receptor, tudo se perde. O que é a dificuldade da profissão, não é? Você tem que se expor em um filme, perceber se os outros se emocionaram, se entenderam e tal. A gente tem que se comunicar. As pessoas gostam mais dos filmes que têm a ver com o mundo delas. O cinema brasileiro tem força com esse chamado “público popular brasileiro”. O brasileiro gosta de se reconhecer nas telas e escutar um filme em sua própria língua.


Você acha que esse entendimento tem ajudado a suavizar aquela velha ideia de que só os ‘filmes- cabeça’ têm valor?

A crítica ainda divide muito o que é cinema cultural do que é cinema comercial. O cinema que eu penso é um cinema onde tudo isso vai estar junto. Eu quero falar com muita gente, sim. Isso não é pecado. É possível fazer cinema com linguagem e proposta, mas que toque e provoque muitas pessoas. O legal é emocionar.

Acha ruim o cinema ficar cada vez mais parecido com a TV?

A priori, não é ruim. Mas temos que lembrar que Besouro, por exemplo, é um filme na contramão do que faz sucesso e foi muito bem de público. A população quer se emocionar e dar risada. Ninguém obriga ninguém a entrar na sala e comprar ingresso. Carandiru, Cidade de Deus até Dois Filhos de Francisco são filmes que não têm a ver com televisão, mas com o que nós somos. Com nossa história.

Já viu o filme ‘Lula - O Filho do Brasil’, que esteve no Festival de Brasília recentemente?

Vi e gostei muito. Acho que ele é um bom exemplo. É a cara de um projeto como o Cine Tela Brasil. Uma maneira interessante de contar a história recente do País, através do nosso presidente, que também é um ótimo personagem. O filme nos dá a oportunidade de conhecer a história dele e do Brasil.

Não ficou maniqueísta?

Não achei o filme maniqueísta. Além do mais, ele provoca outros desdobramentos. Rende debates em sala de aula, na família, com os amigos... Não é um filme a que você assiste e diz: “Ah, vamos votar na candidata que o Lula apoiar”.

Mas essa é uma questão que vai aparecer com força...

Vai. Mas a eleição acaba no ano que vem, o filme fica. Talvez neste ano (2010), a questão seja essa, mas tenho certeza que, em seguida à eleição, o filme sobrevive. Talvez pessoas querendo um cinema mais sofisticado fiquem decepcionadas, mas tem público para Lula - O Filho do Brasil.

E o seu próximo filme, ‘As Melhores Coisas do Mundo’? Ele vai falar sobre jovens, algo raro no cinema brasileiro.

É, esse público está dando bobeira. Mas os jovens assistem a muitos filmes. Visitei escolas, fiz uma pesquisa de campo e perguntei pra eles o que gostariam de ver em um filme sobre sua geração. Eles me pediram para não fazer um filme de adolescente americano. Embora assistam e gostem desses filmes, querem uma coisa mais próxima da nossa realidade.

Descobriu alguma coisa muito diferente nesta pesquisa com os adolescentes?

Adolescência é adolescência sempre. Eles acham que estão vivendo tudo a primeira vez, mas eu conseguia entender seus dramas, dificuldades, dúvidas e amores. Eu já passei por tudo isso. Sabe quando você descobre o tamanho do mundo e tropeça? Isso é a adolescência...


Vai abordar temas polêmicos?

Passa por sexo, drogas... Tem tudo isso e muito mais.


Quando você dirigiu ‘Bicho de Sete Cabeças’ (2001), os apoiadores fugiam porque o filme falava em drogas. Há avanços nisso?

Avançamos.


Quem avançou? O “sistema” ou hoje você é uma diretora reconhecida e com portas abertas?

Começar é sempre difícil, mas hoje existem caminhos, leis, editais que ajudam muito. Na época do Bicho, eu não tinha como acreditar, era quase impossível fazer. Eu tinha certeza que não ia terminar o filme. Eu chegava em casa e chorava.



Que cinema você tem como referência?

Woody Allen. Ele é incrível, sempre muito bom. É um cinema de personagens, de histórias do cotidiano, sempre com um pouquinho de fantasia. Adoro o humor dele. Eu só não entendo como ele filma em uma velocidade tão curta, como consegue dirigir e atuar, como consegue escrever e produzir. Ele só melhora. Eu adoro o Vick Cristina Barcelona. Fiquei muito tocada com a sutileza dos relacionamentos, das pequenas emoções.

O ambiente no set de filmagem é importante?

Tem estresse. Nunca fiz um filme sem estresse. Mas não quer dizer que eu saia berrando pelo set. Só que o processo de criação é complicado, um tiro no escuro. No cinema, tudo é muito caro e o taxímetro não para.


Tem vontade de dirigir TV?

Eu só fiz um documentário para televisão. Mais nada. Sabe de uma coisa? Eu tenho um pouco de medo. TV tem um processo muito rápido. Me assusta essa produção tão acelerada. Sinceramente, não sei se tenho esse ritmo. Ainda acho muito difícil manter a qualidade em uma velocidade assim. Mas tenho curiosidade. Adorei, por exemplo, o seriado Som & Fúria, do Fernando Meirelles.





Cinco Roteiros e Cinco Filmes

O Go Into The Story foi fundamental na minha decisão de construir este pelo qual vos escrevo. Digo declaradamente que muitas das idéias de tópicos que criei aqui são inspiradas no blog do Scott Myers. Porém, o blog do Myers é em inglês. Deste modo, embora existam vários sites (e muito bons) sobre roteiro em português, decidi também criar um pequeno espaço, onde pudesse traduzir (dentro das limitações do meu inglês) textos e materiais interessantes. A propósito, pensem sobre isto, uma língua estrangeira é fundamental para um roteirista - ou melhor, para qualquer ser humano. 


Mas voltando a questão da influência do blog do Myers. Ele sugere um exercício que ele chama de 14 Days of Screenplays. Neste ele pede que os autodidatas interessados em escrever roteiros leiam um roteiro por dia durante 14 dias consecutivos. Na opinião dele, a leitura deste volume razoável de material ajuda o neófito a “absorver” e “assimilar” os elementos fundamentais da escrita de roteiros, como; formatação, cabeçalhos, diálogos, descrições de locações, personagens, ações, etc.


Ele indica 14 roteiros, os quais o interessado precisa apenas clicar para poder ter acesso. (Pensem na maravilha que é isso, o próprio Myers fala da dificuldade que era arrumar roteiros para ler alguns anos atrás, pensem nisto! Temos um acesso a material que era inimaginável há quinze anos!)


A idéia dele não é necessariamente uma idéia original, em essência, acho que todo professor de roteiro deve indicar este tipo de exercício aos seus alunos, é claro que, com variações. Então, vou fazer algo parecido aqui. Não vou sugerir que leiam um roteiro por dia durante duas semanas. Mas vou sugerir que baixem
cinco roteiros (Para isso criei a parte de links para procurar roteiro no menu do blog). Feito isso, assistam ao filme, quantas vezes forem necessárias e/ou puderem. Pensem no roteiro, reflitam sobre o filme. Tentem ver o que estava no roteiro e não foi para o filme. Tentem compreender por que elementos foram acrescentados, por que cenas foram cortadas ou mudadas de lugar na história.


Além do mais, a maioria destes filmes são adaptações. Se quiser ir além do exercício proposto, leiam as obras originais e comparem-nas com os roteiros, tentem entender as escolhas dos roteiristas.


Tenho certeza que este é um trabalho gratificante e poderão ficar viciados nisto.


Vou sugerir aqui cinco roteiros de filmes brasileiros - logicamente para facilitar o acesso daqueles que não falam inglês -, mas não sejam auto-complacentes, ler roteiros em inglês pode ajudá-los de dois modos diferentes. Aprender inglês e a compreender como são escritos os roteiros num mesmo exercício.


Os roteiros sugeridos são (é claro que você mesmo pode escolher outros, sugiro estes pois são obras que eu conheço e gosto, e assim):


Cidade de Deus – Bráulio Mantovani.


O Homem do Ano – Rubem Fonseca. 


Durval Discos – Anna Muylaerte. 


Estômago - Lusa Silvestre, Marcos Jorge e Cláudia da Natividade. 


O Invasor – Marçal Aquino.


Por fim, mais um toque: se você quer trabalhar nesta área é bom começar também a estabelecer prazos, deste modo, acho que você pode se dar uma semana para cada um destes, acho um tempo razoável para quem está começando e não tem muito tempo para se dedicar a este estudo.


sábado, 23 de janeiro de 2010

Ancine planeja abrir 600 novas salas de cinema no país em quatro anos

Você que está pensando em estudar cinema ou trabalhar no ramo agora tem um incentivo extra. Pelo que parece - e espero muito que isto seja verdade - podemos ter um crescimento considerável de salas exibidoras no Brasil. Isto seria um salto enorme para o crescimento da nossa indústria e com certeza criaria muitas oportunidades de trabalho. Mais um motivo para você pegar aquele seu caderno de anotações com dezenas de idéias e começar a escrever seus argumentos.




Vladimir Platonow
Repórter da Agência Brasil

15 de Dezembro de 2009


Rio de Janeiro - A Agência Nacional do Cinema (Ancine) planeja abrir 600 salas de cinema, principalmente nas cidades médias do interior e na periferia das regiões metropolitanas. O programa Cinema Perto de Você será executado em parceria com o Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES) e o Ministério da Cultura, com início previsto para janeiro e duração de quatro anos, disse hoje (15) o presidente da Ancine, Manoel Rangel.

Rangel participou do lançamento da segunda edição do Fundo Setorial do Audiovisual (FSA), que vai disponibilizar R$ 81,5 milhões para apoiar o cinema nacional, incluindo produção de longas-metragens, programas para televisão, distribuição e comercialização. O valor é mais do que o dobro do investido em 2008, que foi de R$ 37 milhões.


Ele explicou que o objetivo do programa Cinema Perto de Você é aumentar o público que vai ao cinema e dotar os bairros afastados e municípios do interior com salas de exibição. Atualmente, segundo ele, existem pelo menos 80 cidades com mais de 100 mil habitantes sem uma sala de cinema. O programa será viabilizado por meio de empréstimos em condições especiais do BNDES.


“O desafio está em toda a parte. Na periferia do Rio de Janeiro, em áreas das zonas norte e oeste, na Baixada Fluminense, no interior do estado, nas periferias de São Paulo, Belo Horizonte e Porto Alegre”, disse Rangel. Uma das inovações que vão permitir o aumento do número de cinemas é a substituição dos rolos de filmes, que dependiam de uma complexa logística de distribuição, pelos projetores digitais.

Segundo dados da Ancine, o Brasil está na 60ª posição mundial no número de salas de cinema por habitante, tendo piorado nos últimos anos. Na década de 70, eram 3.276 salas: uma para cada 30 mil pessoas. Atualmente, existem 2.278 salas no país: uma para cada 83 mil habitantes. E para agravar a situação, elas estão concentradas em 815 complexos, principalmente em shoppings.

Para o presidente da Ancine, o investimento em novos cinemas é uma necessidade e um reflexo do bom momento vivido pelo setor. Só este ano, de janeiro a novembro, os filmes brasileiros atraíram 15,7 milhões de espectadores, cerca de 15,5% do total de 93,3 milhões de pessoas que compraram ingresso, a maioria para ver produções estrangeiras, 77,9 milhões.


Os editais da segunda edição do FSA estarão disponíveis no site da Ancine (www.ancine.gov.br) e no da Financiadora de Estudos e Projetos (Finep), o agente financiador do fundo (www.finep.gov.br), a partir de quinta-feira (17).

http://www.agenciabrasil.gov.br/noticias/2009/12/15/materia.2009-12-15.6992666536/view

Escritos e ditos



"The easiest thing to do on earth is not write."


"A coisa mais fácil para se fazer sobre a terra é não escrever".


Willian Goldman

sexta-feira, 22 de janeiro de 2010

"Paul Schrader - Além da Tela Prateada"


Desde os videogames até a realidade da TV, nós somos bombardeados com narrativas e estamos mergulhados em histórias, diz o lendário roteirista Paul Schrader. O cinema tradicional irá sobreviver? Ou ele irá sucumbir ao “esgotamento da narrativa”?  

Roteiristas adoram reclamar. Eles são desrespeitados pelos produtores, são considerados dispensáveis pelos diretores, não são devidamente creditados pelos críticos, são tratados como empregados pelos atores - embora poucos se queixem por serem historicamente e cronicamente muito bem pagos. Outra coisa da qual eles não se queixam é do "esgotamento da narrativa", embora isso pese muito em suas mentes. Para roteiristas, queixar-se da escassez de idéias originais seria como um vendedor de reclamar da falta de estoque. E isto não é bom para o negócio. 

Escritores sempre souberam que há um número limitado de histórias. A teoria dos sete plots básicos de Christopher Booker popularizou o número sete, mas outros têm argumentado que são três, 20 e 36 plots básicos - Rudyard Kipling disse 69. Isso não é novo. Nós estamos contando variações das mesmas histórias continuamente. Mas isto não é o que quero definir como o “esgotamento da narrativa”. O que é novo é a onipresença e ubiqüidade dos plots criado por proliferação das mídias. Somos inundados por narrativas. Nós estamos nadando em histórias.


Vamos mastigar alguns números hipotéticos. Analisemos uma pessoa com acesso a mídia, digamos, com 30 anos de idade. Chame-o de Ollie Oprimido. Quando o bisavô de Ollie tinha 30 anos, talvez ele tivesse visto 2.500 horas de narrativa audiovisual (plot). Seu avô, com 30 anos, teria visto cerca de 10.000 horas. Seu pai teria vist 20.000 horas. Ollie em 2009, com 30 anos, viu cerca de 35.000 horas de narrativa audiovisual. Estes não são números concretos. Eu não li nenhum estudo com este propósito. Mas isto me parece correto.

Estas são 35.000 horas de plotagem. Filmes, programas de televisão, desenhos animados, vídeo clipes, YouTube. Histórias longas e curtas: comédias adolescentes, novelas, histórias de amor, noticiários, dramas históricos, efeitos especiais extravagantes, horror, pornografia, sabichões, ignorantes, hora após hora, dia após dia, ano após ano. Isso é um monte de narrativa. É cansativo.


O que isto significa? Para um contador de histórias, isto significa que há uma dificuldade crescente para estar à frente das expectativas do público. Todos os assuntos possíveis não tem sido apenas tratados, mas tratados exaustivamente. Quantas horas de trama de assassinos seriais a média dos espectadores já viu? Cinqüenta? Cem? Ele viu as narrativas básicas, as permutações dos enredos, as imitações das permutações dos enredos e as permutações das imitações. Como é que um escritor captura a imaginação de um espectador profundo conhecedor do sub-gênero de assassinos seriais? Torná-lo ainda sangrento? Foi feito. Mais perverso? Já foi visto. Serial killer com humor? Já tivemos. Como paródia? Bocejo. O exemplo do subgênero serial killer é um pouco simplista, mas o que é verdade para as histórias de assassinos seriais é válido para todos os temas de filme. Familiares de policiais? Casais Gay? Políticos corruptos? Desajustados encantadores? Bocejo, bocejo, bocejo. 

Isto torna-se dolorosamente claro para qualquer escritor que tenta contar a sua história oralmente (o roteirista está mais próximo da tradição oral do que a literatura). Você começa a contar uma história, tenta chamar a atenção do ouvinte, então basta ver como Ollie Oprimido empacota a sua história e a coloca em uma “caixa”. Ele viu tantos enredos que ele já tem as “caixas” preparadas. Apenas bota aspas em torno da premissa e a arquiva: ‘Ah, este é o filme dos "dois casais em uma viagem" ou o filme dos" seis homens em um barco salva-vidas". Eu conheço este filme. A mente de Ollie opera como a de editor de história. "E então ele vai para onde pode encontrá-la", o roteirista diz - "e ele a encontra nua, enforcada em um gancho no banheiro", Ollie o ouvinte pensa: eu conheço este filme.

Originalidade, sempre foi algo escasso. Será que a proliferação dos meios de comunicação significa que é mais difícil ser original hoje do que era há 50 anos? Bem, sim. os espectadores de hoje vivem em uma biosfera de narrativa. Vinte e quatro horas por sete dias, multimédia, o tempo todo. Quando um contador de histórias disputa a atenção do espectador, ele não concorre apenas com narrativas, ocorrem simultaneamente, ele concorre com as variações de sua própria narrativa. E esta concorrência é real. A barra de originalidade foi levantada. O mercado de mídia valoriza a algo "novo" ou "fresca" e, ao mesmo tempo, inunda seus telespectadores com narrativas contínuas e concorrentes. 

Os críticos e comentaristas gostam de dizer coisas como "Eu adoro uma história de amor à moda antiga", ou um bom "mistério de assassinato à moda antiga”. Mas qual é sua resposta quando se deparam com isso? Adjetivos como "cansado", "banal", "originalidade", "datado" e "prosaico". O que é que um escritor tem de fazer? Trabalhar cada vez mais fora dos limites da narrativa tradicional, por causa disto. Este esgotamento da narrativa está por trás da ascensão da "recente" contra - narrativa do entretenimento, tais como:

  1. Reality TV. Qualquer espectador regular sabe que a realidade da TV segue suas próprias fórmulas de dramaturgia, mas a aparência de ser improvisado é essencial ao seu apelo. Cansado de tanta trama previsível, o espectador cansado prefere a "realidade".
  2. Narrativa anedótica. A atração de filmes como Slacker e sua derivados mumblecore é o prazer de ver o comportamento livre de artifício da trama. Não é "fake", não "inventada" (embora seja claro que é).
  3. Reenactment drama.Quer seja baseado em eventos famosos ou menos conhecidos,o entretenimento reenactment vende a premissa de que esses eventos realmente aconteceram e não foram cozidos por uma equipe de escritores (embora, novamente, se realmente não são cozidos, eles foram temperados e servidos por escritores).
  4. Videogames. A capacidade de o espectador a participar no processo de narração cria uma ilusão de não-artifício.
  5. Mini-mini-dramas. Histórias apelativas de três a cinco minutos criadas para telefones celulares, o YouTube e “original programming[1] é a ilusão de narrativas de não criadas. Apenas pedaços da vida. 
  6. Documentários. Desde seu início, uma forma de entretenimento filmado, documentários históricos são os primos pobres do cinema comercial e têm crescido em número e em audiência, o aumento deveu-se em parte ao desejo dos espectadores em olhar para além das narrativas previsíveis.

O que mais? Escrever para formatos baseados na previsibilidade e na repetição (telenovelas, procedimentos criminais, desenhos de super-heróis), reembalar enredos velhos com novas estrelas e procure por esse indefinível "toque" original que faz uma história antiga ser novidade. E esperem. Esperem as mídias emergentes para definirem novas necessidades de narrativas.


Contar histórias começou como cerimônia e evoluiu para o ritual. Foi comercializado na Idade Média, tornou-se um grande negócio do século 19 e uma indústria internacional no 20. Hoje é o papel de parede onipresente da era pós-moderna. Como os roteiristas, lutamos com o nosso próprio sucesso. Temos decorado nosso mundo e agora não podemos chegar a ninguém para mostrar a imagem que acabamos de criar. Este não é um grande negócio. Não é uma crise. O esgotamento "da narrativa" não é uma crise com desenvolvimento autônomo, e sim uma de uma série de de crises que afligem o cinema atual.


Os filmes foram a forma de arte do século 20. O conceito tradicional de cinema, uma imagem projetada em um quarto escuro cheio de espectadores, soa cada vez mais velho. Eu não sei o que o futuro do entretenimento áudio-visual vai ser, mas eu não acho que isso será o que costumamos chamar de cinema. A narrativa vai sofrer mutação e resistir. Entretenimento, o áudio-visual está mudando e a narrativa vai mudar com ele. 



Paul Schrader é um renomado roteirista norte-americano e possui em seu curriculum trabalhos como A ùltima Tentação de Cristo, Touro Indomável e Taxi Driver. Para saber mais, acesse
http://www.imdb.com/name/nm0001707/

Este artigo foi publicado em inglês pelo The Guardian, o texto original está disponível no link: http://www.guardian.co.uk/film/2009/jun/19/paul-schrader-reality-tv-big-brother 


A tradução foi feita por mim e agradeço qualquer crítica ou sugestão.

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[1] Creio que este deve ser um termo específico para definir algum tipo de produção particular.





Seja Bem vindo ao Cinedramaturgia!

Espero que encontrem neste blog informações e discussões importantes sobre roteiro e dramaturgia audiovisual, claro, com ênfase em cinema.

O Blog surge da necessidade de trocar idéias, procurar parceiros que compartilhem das mesmas dificuldades profissionais, ajudar aos que começam e também colocar minhas próprias dúvidas. Enfim, todas as necessidades que motivam a criação de um blog.

Não sou roteirista profissional (não tenho um roteiro filmado). Estou trabalhando no meu projeto de mestrado, este que é um roteiro de longa-metragem, quando terminá-lo, ai sim. Quem sabe, em breve, eu possa apresentar mais detalhes sobre o projeto.

Bem, por enquanto, aqui estão algumas dos tópicos que pretendo desenvolver neste blog, muitos tem origem na minha pequena experiência profissional ( que espero crescer muito mais daqui para frente).



  • Diário de um cinéfilo

Aqui pretendo, sempre que assitir a um filme, colocá-lo na lista. Com poster, citação de diálogos ou falas que eu ache inspiradores. Pretendo tambeém deixar o roteiro disponível, e por fim, a análise de alguma cena, com ênfase no roteiro e dramaturgia.



  • Escritos e ditos
Aquelas freses inspiradoras (algumas nem tanto) de roteiristas e escritores, ou de pessoas ligadas a indústria cinematográfica.



  • Notícias comentadas
O cinema no Brasil está em alta. O público está crescendo. Vários cursos estão sendo abertos. Investimentos estão sendo feitos para construção de mais salas. Ou as coisas não estão indo tão bem assim?



  • Textos, com textos e subtextos.
O que ler? Manuais de roteiristas? Hegel e Peter Szondi? Manifestos?
Sugestões e dicas de leitura.



  • Entrevistas (exclusivas, outras nem tanto)
O que os roteiristas e profissionais de cinema tem a dizer sobre mercado, público, etc. Entrevistas escritas, em áudio ou em vídeo.



  • Dicas e exercícios.
A partir de minhas dúvidas iniciais ou daquelas mais constantes em quem está começando a pensar em escrever roteiros, pretendo dar alguns conselhos. E de "graça" hein!



  • Questões de dramaturgia
O drama foi realmente superado? A tragédia diz respeito a seres superiores? Existem gêneros? por quê não consigo criar um protagonista ativo? A narrativa clássica foi superada? O que é o melodrama? O cinema morreu? Quem sabe eu consiga discutir alguns destes assuntos...



Bem, estas são apenas algumas das coisas que tenho vontade de fazer. E quem sabe novas idéias apareçam mais à frente.

Por fim, espero que vocês gostem e que encontrem muitas coisas interessantes por aqui. Não esquecendo o mais importante,sem as suas opiniões, críticas e comentários, este trabalho não faz o menor sentido.

Peguem uma cadeira e fiquem à vontade.