segunda-feira, 15 de novembro de 2010

O Despertar de um Homem (This Boy's Life) 1993


                    DWIGHT
            Aqui estou eu, vocês estão 
            com sorte pessoal!


Direção: Michael Caton-Jones


Roteiro: Robert Getchell do livro de Tobias Wolff


Elenco: Dwight (Robert De Niro), Tobias "Toby" Wolff (Leonardo DiCapri), Caroline Wolff (Ellen Barkin), entre outros.


O filme é legal, com boas interpretações. Há alguns aspectos que eu acho bem interessantes na apresentação do personagem do Dwight, como opr exemplo o lance do isqueiro, quando ele acende o cigarro de uma das amiga de Carol Wolff, a chama alta demonstrando uma personalidade forte e intensa, achei isto muito interessante.


Além do mais há duas coisas que devem ser notadas, uma delas é o fato de que Dwight faz tudo o que um pai faz para educar um filho, até então poderíamos nos indentificar com ele e dizer, "é isso ai"! Mas, Dwight ao ensinar Toby a boxear o ensina a dar golpes sujos e pegar o oponente despreparado. Além disso, fica com o dinheiro do moleque, pronto, o Dwight está acabado diante do público e não é possível mais ter nenhuma empatia pelo mesmo, nem no que ele faz de bom... a propósito, vocês poderiam dizer o que ele faz de bom,a  não ser contar vantgens?


Tropa de Elite 2 - O inimigo Agora é Outro (2010)




                     Ten Cor Fábio
            Porra Rocha, quer me foder? Então 
            me beija!



Direção: José Padilha


Roteiro: Bráulio Mantovani e José Padilha, do argumento de Bráulio Mantovani, José Padilha e Rodrigo Pimentel


Elenco: Ten - Cor Nascimento (Wagner Moura), Beirada (Seu Jorge), Clara (Tainá Müller), André Matias (André Ramiro), Ten-Cor Fábio (Milhem Cortaz), Rocha (Sandro Rocha), Fraga (Irandhir Santos), entre outros.

Já faz umas semanas que eu vi o filme, e confesso, além de estar muito empenhado em dar conta de "The Sopranos" eu estava numa baita crise com o cinema, pensando em desistir disto, trabalhar com outra coisa, mas enfim, isto não vem ao caso. Fui para o cinema cético, sem vontade e sem empolgação, mas faço questão de dizer que isto nada tinha a ver com o filme Tropa de Elite 2 em si, era uma neura minha mesmo.


Quanto ao filme em si, o que eu posso dizer é que eu gostei muito mais do primeiro. Eu pensei que deveria julgar o T2 pelas suas qualidades internas, por si próprio, mas descobri que é impossível falar sobre ele sem a baliza do primeiro, eles estão irremediavelmente ligados e este é o grande problema das continuações.


Há diversos pontos que eu poderia citar que justificam minha opinião, mas vou me ater a apenas alguns deles. 


Não gosto do personagem do Capitão - agora Tenente Coronel -Nascimento. Acredito que no um ele era mais interessante, ele era meio bom, meio mal, como qualquer um de nós. No dois ele já é um personagem mono-dimensional, ele é do bem e se perde um pouco nos labirintos da política, o que ocasiona de certo modo a morte de Mathias. Afinal, se Nascimento tivesse feito algo pelo Mathias quando ele precisou o Mathias não teria entrado numa fria, e consequentemente, morrido. Além do mais, Nascimento é incapaz de perceber o óbvio (ou pelo menos aquilo que é óbvio para o público, o surgimento das milícias) sozinho! Então temos a mão salvadora (e forçada) do Fraga, querendo nos mostrar como seria importante se ambos tivessem dados as mãos e superado suas diferenças. 


O personagem do Fábio era bem mais interessante no primeiro, no segundo ele vira um papagaio que tenta encaixar algum bordão, mas na verdade, acho que o Tropa 2 não tem bons bordões. No entanto Fábio tem um grande momento; ele num barco, bebendo e curtindo com uma gata, e reclamando, é algo muito comum de se ver no Brasil.


A impressão que eu tive foi de um filme muito mais preocupado com a questão das milícias, em documentar a mecânica social de como ela surge em função do vácuo de poder deixado pelo fim da hegemonia do tráfico nas favelas, do que com o desenvolvimento do drama de Nascimento.


É justamente por isso que o então Ten-Cor Nascimento não se encaixa, Nascimento precisa, por intermédio de seu filho, que Fraga lhe diga o que está acontecendo. É por isso que  Mathias não se encaixa, morre e não faz falta, não senti a morte do Mathias e ainda, por isso que o Fábio se torna impotente em relação a Rocha, uma nulidade sem graça e reclamão, o grande trio do primeiro filme se torna quase coadjuvante.


Acho que o filme reflete o problema que já encontramos no livro. A primeira parte é um assombro, um relato brutal do dia a dia de um personagem num campo de guerra, tendo de matar crianças e tendo de atender a mãe de suas vítimas na sequência. A segunda parte é uma descrição dos labirintos do estado corrupto brasileiro.


Por fim, há um momento, para mim, extraordinário; a cena onde os políticos e os policiais corruptos celebram a aliança com a população das comunidades é extraordinária, e num momento que eu não sei se queria ser didático, demonstra os "atalhos" que o poder do estado se utiliza para fazer o que deveria ser feito de modo legal, é como se o estado desse uma volta em torno de si mesmo para fazer o que deveria ser feito. Afinal quem são os homens das milícias? São homens do estado, são políticos e policiais que dão proteção às comunidades de modo ilegal quando deveriam fazê-lo legalmente. 


Mas de qualquer modo, gostaria de enfatizar a importância do filme e sua feliz escolha do tema e do que ele representou em nossa indústria cinematográfica, lembrando que, também, isto só se tornou possível em função dos filmes que o precederam, como Cidade de Deus e o próprio Tropa 1.


quinta-feira, 11 de novembro de 2010

Família Soprano (The Sopranos) Temporada 1, Episódio 2 - 46 Long


                    LIVIA SOPRANO
               Mate-me agora! Vamos, agora! Aqui,
               no peito, pegue a faca do presunto
               e me apunhale, aqui, aqui,
               agora, por favor! Isto me machucaria
               menos do que você acabou de dizer.
                    
                    TONY SOPRANO
               Você sabia, eu conheço idosos
               que são inspiradores!


Sinopse
Chris e seu amigo Brendan roubam um caminhão de uma empresa que paga proteção a Tio Corrado Jr Soprano. Jackie Aprile, o chefe da máfia em New Jersey, que se encontra frágil devido a um câncer, decide que Brendan e Chris devem pagar uma pesada restituição a Tio Junior. Revoltado com o julgamento de Jackie, a dupla decide desafiar a autoridade de Tony e roubar outro carregamento da mesma empresa. A mãe de Tony fica cada vez mais incapaz de cuidar de si própria, quase incendeia sua casa, atropela uma amiga velhinha. Então, após uma violenta discussão com  Tony, este decide interná-la em uma casa de repouso para idosos, que ela insite em chamar de asilo. Ao mesmo tempo, Tony manda seus homens achar o carro roubado do professor de seu filho, o que ele acredita que irá favorecer seu filho diante dos olhos do professor.

Direção: David Chase

Roteiro: David Chase

Elenco: Tony Soprano (James Gandolfini), Drª Jennifer Melfi (Lorraine Bracco), Carmela Soprano (Edie Falco), Corrado "Junior" Soprano (Dominic Chianese), Livia Soprano (Nancy Marchand), Christopher Moltisanti (Michael Imperioli), Antony Soprano Jr - A.J. (Robert Iler), Brendan Filone (Antonhy DeSando), entre outros.

Vou destacar dois aspectos.

O primeiro deles é o personagem de Livia Soprano. Vejam como ele é bem definido, não há uma fala apenas em que ela não esteja afirmando sua personalidade, ela reclama, chora, chantageia, faz drama, é um monstro.

O segundo diz respeito ao final do episódio, parece bobagem, parece simples, mas não é.

As cenas de terapia são muito boas, mesmo que Tony Soprano esteja deprimido, nós sabemos que ele realmente tem problemas e que não se trata de um chorão (o personagem de Livia demonstra isso em cada plano em que ela aparece).

Assim, no momento em que a Drª Melfi toca no ponto da questão, a mãe (e pense em quanto deve ser difícil falar da mãe de um italiano, principalmente do chefa local da máfia?)

Tony se irrita, esbraveja. Mas a psiquiatra diz que ele precisa aprender a lidar com sua raiva, descobrir qual a sua causa, saber como direcioná-la. Tony não dá ouvidos. 

Temos uma cena extremamente tensa e delicada, Tony deixa o consultório nervoso, alguns podem até mesmo achar que ele agrediria a médica ou que ainda mande alguém fazê-lo. Mas não, o que temos na sequência é uma cena leve, numa boate, música eletrônica, garotas semi-nuas dançando.

Então, o barman da boate, uma figura cômica, que não consegue utilizar as funcionalidades de um telefone, começa a ter problemas ao utilizar o aparelho, Tony está por perto e vê o rapaz com dificuldades. Pensamos que ele irá rir da situação, pois a mesma é engraçada, mas não, Tony vai até o sujeito e o agride com o aparelho e depois sai do local.

Vemos então que, temos um momento tenso, a situação do consultório, e depois um momento de descontração, onde pensamos que depois daquele sufoco da cena anterior teremos um pouco de relaxamento (afinal, não é para isso que uma boate de strip-tease serve?) Mas não, temos uma retomada da questão da cena anterior, do fato de Tony não saber de onde vem sua raiva e muito menos saber como controlá-la ou descarregá-la.





Para quem quiser dar uma lida no roteiro, clique AQUI!

Família Soprano (The Sopranos) Temporada 1, Episódio 1 - Piloto da Série (2)



                        TONY SOPRANO
                    (demonstrando raiva)
               O que aconteceu com o Gary Cooper? 
               O tipo forte e silencioso?


Sinopse
Tony Soprano procura uma psiquiatra depois de desmaiar na festa de aniversário do filho. Relutante para falar no começo, logo ele se solta e começa a falar sobre seu dia a dia estressante, sobre seu trabalho como "administrador de lixo", e sobre ser o chefe da máfia local. Das disputas internas de poder, dos rivais e da violência de seu trabalho, dos problemas familiares tão comuns, seus esforços em ser um homem bom e honesto e sobre a tristeza em ter visto os patinhos crescidos no seu quintal e na sua piscina aprenderem a voar e irem embora.


Direção: David Chase

Roteiro: David Chase

Elenco: Tony Soprano (James Gandolfini), Drª Jennifer Melfi (Lorraine Bracco), Carmela Soprano (Edie Falco), Corrado "Junior" Soprano (Dominic Chianese), Livia Soprano (Nancy Marchand), Christopher Moltisanti (Michael Imperioli), entre outros.


Muita coisa pode ser dita a respeito de "Família Soprano", desde a interpretação naturalista até a trilha sonora, mas como este é um blog de dramaturgia, vamos ao que interessa.


Agora que já vi todas as temporadas e conheço o arco dramático da série, para onde ela vai e o que acontece, sinto mais segurança para discorrer sobre o todo o texto. É claro que muitas lacunas surgirão no decorrer do seriado, mas muitas destas lacunas serão justamente o que irá preencher a suposta "falta de sentido" do último capítulo, mas isto é algo que irei falar em outro momento.


A princípio creio que um do problemas centrais da série é: o que é afinal ser homem nos dias de hoje? O que aconteceu com Gary Cooper? O tipo durão e reservado? O machão que topava qualquer parada, capaz de dizimar mais do que dois batalhões de alemães sozinho em Seargent York? Ou o Cary Grant de Only Angels Have Wings?


É justamente este o problemas que leva Tony Soprano a procurar ajuda psiquiátrica. Aqui temos então o nó da história. Como poderemos ver nos episódios posteriores, é justamente o fato de procurar a psicoterapia, - o que geralmente leva o indivíduo a adquirir mais conhecimento de si - um dos catalizadores que a motivar uma série de forças antagônicas contra Tony.


No que tange o autoconhecimento, iremos participar do seriado descobrindo quem Tony é, o que é mais importante, descobriremos isto junto com ele! E acompanharemos a jornada de Tony, semelhante a de Édipo, em busca da verdade a seu respeito.


Aqui temos um elemento importante. Afinal a forma como a Syuzhet organiza a trama adota um narrador, mas não uma narrador passivo, afinal, em diversos momentos, enquanto Tony narra sua história para a psiquiatra, o que nós vemos se desenrolando é justamente sua narrativa.


Esta estratégia, brilhantemente utilizada aqui não é novidade, poderia citar dezenas de filmes que a utilizam, desde A Testemunha de Acusação (Witness to Prossecution) de Billy Wilder, A Malvada (All About Eve) de Joseph L. Mankiewicz (Não confundir com o irmão dele, Herman J. Mankiewikcz que é o roteirista de Cidadão Kane), ou em filmes não tão antigos, como Entrevista com o Vampiro.


Em Witness to Prossecution, o que nos é apresentado é a narrativa de Leonard Vole (Tyrone Power) a respeito de sua história, de como conheceu Christine Vole(Marlene Dietrich) e de que é inocente de um crime. Esta narração é feita a Sir Wilfrid Robarts(Excepcionalmente interpretado por Charles Laughton), sendo que o que nos interessa é o fato de Sir Wilfrid Robarts ser um advogado. Um advogado que estuda o caso de Leonard para defendê-lo de um crime o qual Leonard afirma não ter cometido. Ou seja, narrativa diz respeito a Leonard contando os "fatos" para o seu advogado de defesa.

Em A Malvada (All About Eve), temos acesso à fábula devido ao uso da narrativa feita por Addison De Witt (George Sanders), sendo que o que legitima a opção pela narração, é o fato de De Witt ser simplesmente um crítico teatral, fato que ele apresenta em suas primeiras palavras.

Em Entrevista com o Vampiro também temos um narrador, e quem a realiza é Louis (Brad Pitt), o que há de interessante aqui é que a entrevista é feita para um jornalista, Daniel Maloy (Christian Slater).

Assim, o que temos são três interlocutores dos protagonistas que são profissionais que trabalham, de certo modo, com informação, e buscam informação sobre o protagonista ou aquele que fala e/ou conhece o protagonista. 

No caso de "The Sopranos", a interlocutora, ou seja, para quem o protagonista irá narrar a história, é uma psiquiatra, alguém que não irá apenas ouvir ou nos contar quem é o protagonista, mas que irá guiar o herói na sua jornada de auto-conhecimento e em transformação o que dá uma gigantesca dimensão ao personagem. Sabiamente, quando David Chase ofereceu o papel de Carmela Soprano a Lorraine Bracco, ela simplesmente recusou pediu o papel da psiquiatra por ser muito mais desafiador.

Então resumindo a ópera, podemos dizer que não é uma inovação utilizar um interlocutor para o protagonista para que ele conte sua história, isto é tão velho quanto a roda! O difícil é conseguir um interlocutor ativo, ou pior, não dar nenhum interlocutor ao protagonista e deixa-lo falando sozinho como um idiota auto-centrado.

Ainda no que diz respeito à narração, temos no piloto da série um grande momento. Quando a psiquiatra, prevendo que Tony iria lhe contar algo muito barra pesada, já estabelece alguns limites na relação entre ambos, dizendo que qualquer coisa dita por Tony, que configure um homicídio ou alguém tenha se machucado, ela será obrigada a se reportar às autoridades. Isso acontece quando Tony começa a falar sobre uma cobrança que ele e seu sobrinho iriam fazer. Quando ela diz isto, tomamos um banho de água fria e pensamos "Ferrou tudo, só vamos ficar ouvindo este cara se lamentar e chorar por causa dos seus problemas", mas o que acontece?

O que aparece como um problema para o roteirista é visto como  um desafio e resolvido da melhor maneira possível. Tony diz para a psiquiatra que ele e seu devedor foram apenas tomar um café e que tudo ficou resolvido da melhor maneira possível. E então vemos Tony quebrar a perna do devedor e ainda dar vários socos na perna machucada e no rosto.

Posso não estar muito certo do que vou dizer, mas isto ajuda e muito a estabelecer empatia com Tony Soprano, pois ficamos íntimos do mesmo, mais íntimos do que sua própria psiquiatra, pois sabemos que iremos compartilhar com ele seus segredos.

Bem, acho que pelo primeiro episódio é melhor eu parar por aqui.

Até o segundo episódio.




quinta-feira, 28 de outubro de 2010

Short Films Studies

Para quem estiver interessado em curta metragens e lê inglês (ou tem noções básicas e coragem de enfrentar o texto com um dicionário do lado, heheheheh) aqui segue um volume da Short Film Studies, da Intelect Books.

O bacana é que eles analisam três curtas bem interessantes. São eles 

The War is Over, de Nina Mimica.


The Village, de MILES GOODALL

Undressing my Mother, Ken Wardrop
http://www.venom.ie/undressing.mov


quinta-feira, 30 de setembro de 2010

Dramatic Technique by George Pierce Baker





DRAMATIC TECHNIQUE

BY

GEORGE PIERCE BAKER
PROFESSOR OF HISTORY AND TECHNIQUE OF
THE DRAMA IN YALE UNIVERSITY


"Uma boa peça é certamente a mais
racional e mais alta forma de Entrenimento
que a Invenção Humana pode produzir"
                              COLLEY GIBBER




HOUGHTON MIFFLIN COMPANY
BOSTON NEW YORK CHICAGO DALLAS SAN FRANCISCO
The Riverside Press Cambridge

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COPYRIGHT, 1919, BY GEORGE PIERCE BAKER
ALL RIGHTS RESERVED

The author aclcnowledges courteous permission to
quote passages from copyright plays as credited
to various authors and publishers in the footnotes.

The Riverside Press

CAMBRIDGE MASSACHUSETTS
PRINTED IN THE U.S. A.


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Digitalizado pela Microsoft Corporation
para o Arquivo da Internet, em 2007.
para a Universidade de Toronto.
Pode ser usado para fins não comerciais, pessoais, 
pesquisa ou propósitos educacionais, 
ou qualquer uso próximo destas premissas.
Não pode ser indexado como um serviço comercial.


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PREFÁCIO[1]

"Dramaturgos nascem dramaturgos, dramaturgia não é algo que se aprende".  Este senso comum, que confere ao dramaturgo um talento[2] nato, não é uma afirmação comum a outros artistas. Ninguém diz que o arquiteto, o pintor, o escultor e o músico já nascem dominando sua arte.

Produtores, no entanto, não parecem estar tão certos disto, pois foram muitos os que ouvi dizer: "As peças que recebemos se dividem em duas classes: aquelas escritas com competência, mas banais no assunto e no tratamento, e aquelas de alguma forma vigorosas e interessantes, mas tão mal escritas que não podem ser produzidas".  

Alguns anos atrás, o Sr. Savage, um produtor, escrevendo ao The Bookman[3] sobre "Dramaturgos dos Estados Unidos", disse: "Em resposta à questão: 'Será que a grande maioria destas pessoas sabe alguma coisa, ao menos dos fundamentos, da construção dramática?

Os produtores e os agentes que lêem os manuscritos são unânimes em sua negativa. Apenas em raras ocasiões chega pelo correio uma peça que traga um pequeno vestígio de conhecimento da ciência da dramaturgia[4]. Quase todas as peças, além disso, são extremamente artificiais e totalmente desprovidas de qualidade e de interesse". 

Todos esses relatos de produtores e leitores mostram que há algo que o dramaturgo não tem como uma vocação de nascença, mas sim que ele deve aprender seu ofício. Onde? Normalmente é dito: "Na Escola da Dura Experiência". Quando um jovem dramaturgo, cujo manuscrito lhe foi devolvido - mas com comentários favoráveis - pergunta o que ele deve fazer para se livrar das falhas em seu trabalho, tanto os evidentes como os não evidentes, ele é orientado a estudar muito dramaturgia; assistir peças de todos os tipos, escrever com infinita paciência e resolução, e nunca desanimar!

 Ele deve continuar escrevendo e apresentando suas peças até que, por este método um tanto indefinido de treinamento, ele finalmente venha a adquirir a capacidade de escrever bem e um texto seu é aceito. Esta é "a Escola da Dura Experiência." Apesar de ser um método longo e doloroso de formação, teve, inegavelmente, muitos graduados distintos.

Por que, no entanto, não pode ser possível ao aspirante a dramaturgo economizar tempo, colocando-se diante, não apenas da teoria, mas também dos trabalhos dos grandes dramaturgos do passado, de modo que tanto o que eles tenham em comum, quanto suas diferenças, fiquem claras ao aprendiz? Isto é tudo o que almejo neste livro.

Criar um dramaturgo do nada é algo como um milagre moderno. Desenvolver teorias do drama independente do que foi feito pelos que vieram anteriormente é algo impossível. Um dos meus objetivos neste livro, à luz de uma tradição histórica, é distinguir o que é permanente e o que não é na nossa técnica. Irei me esforçar em mostrar ao dramaturgo inexperiente, como os mais experientes solucionaram problemas similares, economizando assim etapas no processo de aprendizagem.

Este livro é o resultado de discussões quase que diárias, durante anos, em aulas onde muitas das idéias contidas nele foram discutidas, porém em discussões onde havia uma chance de tratar  de questões excepcionais, aparentes ou reais, de forma individualizada, onde se poderia discutir qualquer princípio enunciado com calma com os alunos. Essa discussão completa, no entanto, é impossível de ser condensada no  presente livro. Por causa disso, devo parecer aos meus alunos ser um professor muito mais dogmático do que realmente sou.

Nenhum livro pode se equiparar ao valor do trabalho adequado em sala de aula. A prática do passado providencia princípios satisfatórios para os alunos de talento mediano[5]. Porém, um artista excepcionalmente dotado, depois de aprender estes princípios, deve romper com eles. A sala de aula permite ao professor algumas exemplificações banais, mas oportunas. Os livros por sua vez possuem suas limitações. Este livro, então, não deve ser compreendido como um substituto de uma boa aula, mas como complemento, ou para oferecer o que pode, quando tal instrução é impossível.

O conteúdo deste livro foi originalmente reunido a partir de notas de sala de aula, e de oito conferências proferidas perante o Lowell Institute, em Boston, no inverno de 1913. Elas foram cuidadosamente reformuladas para  palestras posteriores no Brooklyn e na Filadélfia. É certo que tanto dentro como fora da sala de aula estas anotações foram minuciosamente revistas durante cinco anos.

A consideração detalhada acerca da peça em um ato, foi reservada para um outro momento, através de um tratamento especial, pois no presente livro, busco  tratar com objetividade apenas os diversos problemas básicos que o aspirante a dramaturgo deve enfrentar no aprendizado dos fundamentos de uma arte muito difícil, porém fascinante.

Eu escrevo para as pessoas que irão se contentar apenas quando escreverem suas peças. Eu gostaria de deixar entendido que eu não escrevo para quem procura métodos de técnica dramática. Inclusive vejo com alguma apreensão o recente crescimento, como cogumelos, de tais cursos em todo o país. Eu duvido seriamente da conveniência de tais cursos para alunos de graduação.

A técnica dramática é um meio de expressão das próprias idéias e emoções para o palco. Com algumas raras exceções, os universitários estão mais voltados a preencher suas mentes com um conhecimento geral do que na tentativa de expressar seus pensamentos, suas emoções confusas e imaturas, num palco.

Em geral, eu acredito que o ensino de dramaturgia deva ser direcionado a alunos de pós-graduação. Também acredito que isto deva ser feito por pessoas que tenham experiência em atuar, produzir, e escrito peças de teatro, e que tenham também lido e visto peças de diferentes países e épocas. Pois, o professor que não é muito eclético em seu gosto, na melhor das hipóteses, irá produzir escritores com um carimbo facilmente reconhecível.

Em todas as disciplinas criativas, o problema não é, "O que podemos fazer destes alunos por nós, os professores?" Mas, "Qual destes estudantes tem algum poder criativo individual? Qual é? Como dar a ele um desenvolvimento rápido e completo?" Liberdade completa de escolha tanto do assunto como do tratamento para que a individualidade do artista possa ter a sua melhor expressão são indispensáveis para o desenvolvimento da grande arte.

Destreinados e procurando às cegas os meios para seus objetivos, sua técnica pode se desenvolver baseada no estudo de dramaturgos de sucesso que o precederam. Desde que ele busque desenvolver sua própria técnica, que seja mistura daquilo que aprendeu do passado e uma adaptação das práticas anteriores às suas próprias necessidades.

Pretendo com este livro ajudá-lo em sua difícil busca para o desenvolvimento de sua própria técnica, baseada na prática de outros. O livro pode fazer algo, mas só um pouco, para desenvolver a sua técnica, que é e deve ser individual. A instrução mais útil e desejada, não são os livros, não são as palestras, mas o freqüente diálogo entre os alunos e seus professores. Depois o artista deve procurar desenvolver uma técnica acurada, e que esteja em diálogo com uma tradição histórica que o ajude escrever uma peça que ninguém jamais poderia ter escrito. A partir de então ele deve trabalhar com três grandes mestres: a prática constante, o escrutínio preciso de seu trabalho, e, acima de tudo,  tempo. Só quando ele passou pelo teste destes três Mestres é que o artista está amadurecido.

Geo. P. Baker






ÍNDICE

I. A Técnica no Drama: O que é. O Drama como Arte Independente 1

II. A Essência do Drama: Ação e Emoção. 16

III. De Indivídual para a Trama. Abrindo o Caminho. 47


IV. Do Individual, através da História para a Trama. Clareza através de uma Seleção Sensata.73


V. Do individual para a Trama: Dosagem do Material: Número e Duração dos Atos. 117


VI. Da Individual para a Trama: Disposição para a Clareza, Ênfase, Movimento. 154


VII. Caracterização. 234

VIII. Diálogos. 309

IX. Construindo um Cenário.  420


X. O Dramaturgo e seu público 509


INDEX. .... .523



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[1] Gostaria de ressaltar que meu inglês não é dos melhores e que em muitas ocasiões o Tradutor do Google me ajudou bastante. Mas com a intenção de ajudar a disponibilizar grandes trabalhos da língua inglesa, aos quais tenho tido acesso, tenho feito este esforço sincero, afinal, se estou lendo para meu proveito, tentar traduzi-lo para o português pode tanto melhorar minha compreensão do texto como ainda posso compartilhá-lo. Não apenas agradeço toda a crítica, como também ficaria muito grato por correções e observações na tradução. Para aqueles que se interessarem e tenham conhecimento suficiente da língua inglesa, clique AQUI para ter acesso não apenas a esta, mas diversas outras obras sobre dramaturgia estão disponíveis gratuitamente. 
[2] Preferi traduzir experience por talento, uma vez que ele fala do que o dramaturgo tem em comum e por nascença com outros artistas. (NT)
[3] The Bookman – Revista mensal inglesa, publicada entre 1891 e 1934, tendo tido entre seus colaboradores, escritores como W.B. Yeats e Samuel Beckett (NT)
[4] Em inglês – science of drama-making (NT)
[5] ordinary endowment. Em inglês.