terça-feira, 16 de novembro de 2010

Capítulo 1 - A Técnica no Drama: O que é. O Drama como Arte Independente.

DRAMATIC TECHNIQUE

BY

GEORGE PIERCE BAKER
PROFESSOR OF HISTORY AND TECHNIQUE OF
THE DRAMA IN YALE UNIVERSITY


"Uma boa peça é certamente a mais
racional e mais alta forma de Entrenimento
que a Invenção Humana pode produzir"
                              COLLEY GIBBER




HOUGHTON MIFFLIN COMPANY
BOSTON NEW YORK CHICAGO DALLAS SAN FRANCISCO
The Riverside Press Cambridge

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The Riverside Press

CAMBRIDGE MASSACHUSETTS
PRINTED IN THE U.S. A.


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CAPÍTULO I

A Técnica no Drama: O que é. O Drama como Arte Independente


Este livro tratará apenas dos trabalhos que foram encenados ao público, ou que tenham escritos para serem encenados e que por algum motivo não o foram. Não é minha preocupação tratar de peças escritas apenas para serem lidas, os chamados closet-dramas[1]. Não é minha intenção discutir aqui teorias, atuais ou não, que digam o que  o drama é ou deveria ser. Meu esforço será apenas tratar de peças que foram bem sucedidas em diferentes países e em diferentes períodos, escritas por homens altamente dotados em sua arte.

A técnica de qualquer dramaturgo pode ser definida, grosso modo, como os seus meios, métodos e dispositivos utilizados para obter os fins desejados. Cabe lembrar que nenhum dramaturgo adquiriu esta técnica como um dom de nascimento, nem a adquiriu apenas e unicamente escrevendo peças. Ele lê e assiste apresentações, tanto de peças contemporâneas quanto de peças antigas, e provavelmente em grande número. Se ele for como a maioria dos jovens dramaturgos, entre Shakespeare e Ibsen, certamente ele imita o primeiro.  Além disso, ele certamente tem uma edição de Love’s Labors Lost, ou de Feast at Solhaug. Mesmo que seu tema seja atual, o jovem dramaturgo deve inevitavelmente estudar a prática dramática anterior a sua época, ou ainda de algum período mais remoto que o interesse, cujos  modelos de peças sejam semelhantes ao que ele tenha em mente.

Muitas vezes, ele se permite uma imitação apaixonada e muito literal de Shakespeare, de algum dos grandes dramaturgos gregos, Ibsen, Shaw ou Brieux. Naquele momento, pode ser considerada uma ótima imitação, e o jovem dramaturgo fica satisfeito, mas logo ele descobre que de algum modo os produtores e o público parecem gostar muito pouco de grandes dramaturgos de segunda mão. No entanto, a história do drama tem mostrado repetidamente que um dramaturgo pode dever algo para os dramaturgos de um período anterior e alcançado o sucesso. A influência do teatro grego em “The Servant in the House” é inquestionável. Por sua vez, Kismet, de Knobloch, foi inspirada em peças do teatro elisabetano, buscando, em primeiro lugar, contar uma história cheia de incidentes incitantes.

Então, onde está a dificuldade? Justamente aqui. Muitas pessoas não compreendem que a técnica dramatúrgica, os seus métodos e dispositivos são historicamente de três tipos: universal, especial e individual. Primeiro, existem determinados princípios básicos que  todas as peças boas compartilham em parte, de Ésquilo a Lord Dunsany. Estas são as qualidades mais simples que fazem de uma peça uma peça.  As quais o aprendiz deve estudar a fundo e imitar.

Em segundo lugar existe a técnica especial de um período, como do período elisabetano, da restauração, do período de Scribe e toda a sua influência. Um bom exemplo deste tipo de técnica é a diferença de tratamento de Antônio e Cleópatra de Shakespeare e o equivalente de John Dryden, em All For Love. Cada dramaturgo trabalha com sinceridade, acreditando na técnica que ele utiliza para dar o melhor de si para o público e atingir os efeitos desejados. O público de Shakespeare pode não se importar com a versão de Dryden: a restauração se inspirou num Shakespeare primitivo, remodelado por dramaturgos cujo trabalho parecia muitas vezes ser mais um trabalho de vandalismo, diante de uma beleza a qual não conseguiam compreender. A técnica de Corneille e Racine, apesar da base teórica advir dos clássicos, diferenciavam-se dos gregos e de Sêneca. Por sua vez, o drama que pretendia copiá-los, o então chamado Drama Heróico da Inglaterra de 1660 a 1700, por sua vez também se diferenciava de suas referências. Ou seja, uma história já dramatizada anteriormente, quando reapresentada ao palco, deve compartilhar com o passado, certas características fundamentais do que definem uma peça, mas também, em certa medida, deve ser apresentada de maneira diferente das já vistas. Por quê? Por que, em primeiro lugar, o dramaturgo esta usando um palco  diferente daqueles utilizado por seus antepassados, e, segundo, por que ele está escrevendo para um público com diferentes valores morais e estéticos. Uma simples comparação com o que era apresentado nos palcos gregos, ou elisabetanos, da restauração, ou dos nossos dias demonstra a verdade da primeira afirmação. A comparação entre as religiões e os valores sociais entre os gregos e o público de Shakespeare, ou o público dos dias atuais pode confirmar a segunda. O drama de qualquer período do passado, se estudado cuidadosamente, pode revelar a essência do drama em todos os tempos, devendo revelar também métodos e artifícios efetivos para o público de todas as épocas, mas muitas não tão efetivas no presente. Sem dúvida que um jovem dramaturgo pode desenvolver sua técnica olhando para a geração dos dramaturgos que o antecederam. Mas apenas isto não basta, ele deve compreender tanto as questões mais amplas como a das transformações, particularmente na França e Alemanha, no início do século XIX, da transição do classicismo para o romantismo. Assim como também, das mudanças no final do século e das influências generalizadas de Scribe e de Ibsen.

O principal ensinamento que o drama do passado tem a ensinar ao jovem dramaturgo é mostrar o que é essencial no drama. A imitação mais apropriada, certamente, se dá a partir do estudo de períodos especiais, no qual o temperamento do público se assemelha em seus interesses, preconceitos, e ideais aos do período do dramaturgo. Estes estudos, sem dúvida, podem propiciar resultados ainda mais satisfatórios. Porém, a semelhança exata é rara. Cada período demanda sua própria técnica, a qual, em certa medida, fora uma contribuição dos mais jovens dramaturgos do momento. Partindo do que se conhece dos elementos em comum a todas as boas peças, alertando para a importância das sugestões que a prática de qualquer período pode lhe oferecer, ele acha seu próprio caminho para novos métodos e técnicas para tocar seu público com o efeito desejado. Muitos dramaturgos ou a maioria de muitos períodos descobriram isto. Estes que fizeram uso de algo especial que se transformou numa técnica específica que marcou sua época.  Talvez, estes tenham desenvolvido sua própria técnica algo que não possa ser encontrado nas peças de nenhum outro dramaturgo. Então aqui chegamos ao  terceiro tipo de técnica, aqueles presentes apenas no trabalho dos grandes dramaturgos. Normalmente, suas características específicas são inimitáveis e elusivas, por que é o resultado de um trabalho único acerca de aspecto peculiares do drama em um momento especial. A imitação simples e explícita de uma técnica individual tem o resultado semelhante a vestir roupas feitas sob medida para outra pessoa, ficando visivelmente desajustadas.

A cópia bem feita, não foi a que teve importância na prática de qualquer período anterior, esta é apenas reconhecida como algo não sendo de seu tempo nem de outro, no máximo, sendo considerada apenas um sucesso de imitação literária.

Dos três tipos de técnicas; universal, especial e individual, um dramaturgo deve compreender totalmente a primeira. Reconhecendo as limitações da segunda e da terceira, devendo estudar mais a proposta das mesmas do que seus modelos. Quando ele compreender totalmente o significado da primeira técnica, e quando for capaz de desenvolver a segunda com segurança, é provável que esteja apto a passar para o terceiro tipo,  partir de suas próprias contribuições individuais.

Por que, entretanto, pesquisadores competentes afirmam que aqueles que já escreveram histórias longas e curtas, para serem considerados “dramáticos”, tiveram de fazer estudos de outras peças? Pois, como dramaturgos, eles precisariam entender elementos fundamentais de caracterização e diálogo, sem os quais jamais teriam escrito uma história de sucesso. Evidentemente também eles precisam conhecer algo sobre estrutura.

Acima de tudo, eles precisam mostrar habilidade para então poder representar  pessoas e suas emoções, para despertar respostas emocionais em seus leitores, ou seus trabalhos não podem ser chamados de dramáticos. Por que, então, não deveriam eles escrever romances e peças de acordo com sua própria vontade? Certamente, é inegável que muitos romances parecem ter momentos tão dramáticos quanto qualquer peça de teatro. Em cada momento algo é dito ou feito que guie o leitor ou o espectador de acordo com os desejos do autor. Estes fatos representam a crença disseminada e profundamente enraizada de que qualquer escritor deve ser capaz de escrever peças de sucesso se assim o desejar, principalmente se adaptar seu próprio texto para o palco.  Não é de se estranhar que a maioria das adaptações de histórias de sucesso e adaptações de romances bem sucedidos são estrondosos fracassos? O fato de que o drama teve durante séculos na Inglaterra e em outros lugares uma história fecunda antes do romance como forma ter adquirido sua forma mais intimista do que no teatro, tornando-se artes distintas e independentes; o teatro, o romance e o conto. Quando escritores e aspirantes a dramaturgos reconheceram que o romance e o drama são artes distintas, certamente, poupamos o mundo de muitas peças ruins. 

É inegável que o romancista e o dramaturgo trabalham, a princípio, com elementos comuns - a história, os personagens e os diálogos. Se a sua habilidade em comum de discernir em sua história ou nos personagens, os interesses emocionais do público, o chamado “senso dramático”, isto é “desenvolvido por estudar muito e, geralmente, pela prática de longa data. O talento teatral que consiste no poder de fazer seus personagens não apenas dizer a história e seu sentido pelo diálogo, mas por meio de forma tão habilmente planejada e na ordem necessária, dentro dos limites de uma simples representação teatral. Produzindo assim a maior quantidade possível deste tipo específico de efeito emocional, cuja produção é a função de um grande teatro[2]. Além disso, algumas diferenças básicas entre a relação do escritor com seu leitor e do dramaturgo com seu público revelam porque a arte de cada um são tão diferentes.

O espaço relativo concedido ao romancista e ao dramaturgo é a primeira condição que diferencia as técnicas de ambos. Uma peça de três atos possui, em média, quarenta páginas datilografadas, tendo aproximadamente cento e cinqüenta minutos, ou duas horas e meia de ação. Considerando o tempo de descanso entre os atos, o texto pode ser um pouco mais curto. O romance, por sua vez, se desenvolve por algo entre duzentos e cinqüenta e seiscentas páginas. Obviamente, isto se reflete em métodos distintos e em diferentes formas de manipular o material dramático. O dramaturgo, para obter bons resultados em seu trabalho, deve trabalhar de forma muito concisa, o que demanda grande habilidade de seleção do material dramático para conseguir alcançar os efeitos desejados de modo mais rápido e contundente. Um romance nós lemos em uma ou meia dúzia de leituras, com preferirmos. Além disso, podemos fazer uma pausa para refletir sobre o que acabamos de ler, ou ainda, re-ler, se assim o preferir. No teatro a peça deve ser vista toda de uma vez, deve ser ouvida atentamente, pois não se pode voltar atrás, não podemos fazer uma pausa no meio do ato para refletir. Pois a peça é empurrada constantemente para o fim de seus atos. Evidentemente, temos aqui outra razão para fazer uma peça ser mais rápida do que um romance. Esta necessidade de rapidez requer métodos e efeitos muito específicos, mais enfáticos e óbvios do que no romance. O que o dramaturgo seleciona para seu trabalho deve se mais efetivo e de efeito mais imediato do que no caso do romancista. O dramaturgo deve trabalhar suas viradas de modo mais preciso e econômico, diferentemente das possibilidades do romancista.

Na grande maioria dos romances, o leitor é, por assim dizer, pessoalmente conduzido, o romancista é nosso guia. No teatro, porém, há certa distância em relação ao dramaturgo, portanto, nosso caminho é solitário. No romance o autor descreve, narra, analisa e tece seus comentários, suas próprias observações das circunstâncias e dos personagens. Nós esperamos que o romancista se revele em seu trabalho. Por outro lado, os grandes dramaturgos, como Shakespeare e Moliére, em suas peças, singularmente, revelam pouco de si próprios. Já, dramaturgos de menor envergadura -- Dryden, Jonson, Chapman -– seriam aqueles que utilizariam seus personagens como porta vozes, para dizerem aquilo que os autores querem, revelando assim suas próprias personalidades. Porém, agora que o solilóquio e modos afins estão cada vez mais fora de uso, o dramaturgo, quando comparado com o romancista, aparenta, num primeiro momento, grande dificuldade de expressão. Afinal, o dramaturgo nunca deve usar descrição, narração, análise, e os comentários pessoais. Apenas, em raras circunstâncias quando o personagem for ele próprio. Podendo utilizar estes recursos em raros momentos, quando, por exemplo, convir falar algo sobre o personagem. Mas deve-se lembrar que seu principal recurso é a ação, que sem dúvida é muito mais adequada aos seus personagens. Certamente, estes aspectos estabelecem diferenças cruciais na técnica do romancista e do dramaturgo, fazendo com que o romance, deva ser na grande maioria das vezes, muito mais pessoal, enquanto o bom drama é impessoal.

O palco onde a peça é encenada também apresenta elementos que diferenciam a técnica do dramaturgo e a do romancista. Não importa tão pequeno seja o teatro ou o palco, ele não pode permitir a mesma intimidade que há entre o leitor e o livro. Uma pessoa lê um livro para si, ou no máximo para um pequeno grupo. Na maioria dos casos escolhe as condições em que irá lê-lo, no interior de casa ou ao ar livre, sozinho ou com pessoas em torno de si. No teatro, de acordo com o tamanho do auditório, para cem ou duzentas pessoas, ou mil, assistindo a peça, sob as mesmas condições de luz, calor ou ventilação, estando, na maioria dos casos, a certa distância do palco. No teatro, todos estão fechados, desde o começo da apresentação até o fechamento das cortinas. Além disso, o romance se apresenta para a mente e emocionalmente através dos olhos, enquanto o teatro busca atingir seus objetivos através dos olhos e dos ouvidos. Além disso, o cenário, o figurino e a luz tornam desnecessárias muitas descrições absolutamente necessárias em um romance. A voz humana vivifica a imaginação de um modo que poucas páginas não poderiam jamais ousar fazer. Estas condições desiguais nos obrigam a lidar de maneiras diferentes para a apresentação de um mesmo material.


É exatamente esta maior concretude, a maior nitidez em uma sequência de uma encenação que nos arrebata tanto pela visão como pela audição no teatro em detrimento daquilo que podemos ler com relativa calma em um jornal, numa revista ou num romance. Diariamente nós lemos nos jornais horrores atrás de horrores e não enlouquecemos. Porém, presenciarmos um acidente automobilístico pode nos deixar enervados e até mesmo doentes. Podemos ler, horrorizados, até o fim a Gargalhada Vermelha de Andreiév. Mas, uma excepcional apresentação no palco do terror da história pode deixar algumas pessoas da platéia tão insanas quanto os personagens do livro. Esta é a diferença que se aplica em nossa atitude em relação ao que encenado e o que é escrito. “Vejamos um exemplo, a Matrona de Éfeso. Esta fábula sarcástica e bem conhecida é sem dúvida uma das mais amargas sátiras já feita contra a frivolidade feminina. Já fora recontada mil vezes depois de Petrônio, e sempre satisfez em suas encenações, por piores que fossem. A personagem da matrona no palco provoca uma total falta de identificação para com a audácia do casal apaixonado, o que torna o drama repulsivo. No palco, o assédio do soldado não parece ser sutil e inapropriado, como no texto. No texto, nós vemos uma mulher sensível, que é realmente sincera em sua dor, mas que sucumbe à tentação. Não a desprezamos, pois sentimos que ela faria aquilo que qualquer outra mulher faria em sua situação. Mesmo a sugestão dela para salvar seu amante com o corpo do marido morto nos parece perdoável em função de sua ingenuidade e desespero. Podemos até pensar num escritor venenoso a nos manipular contra a mulher. Agora, no palco, não podemos nos abrigar nestas escolhas. Aquilo que teríamos dúvida e complacência lendo, não nos será permitindo assistindo a uma apresentação, a evidência de nossos próprios olhos impossibilita a empatia. A mera possibilidade de que a ação nos divirta em toda sua atrocidade é abominável. Nós nos horrorizamos com que é encenado no palco e pensamos como o Lykas de Petrônio, mesmo não estando na mesma posição de Lykas; ‘se o imperador fosse justo, ele teria devolvido o corpo do marido ao seu túmulo e crucificado a mulher’. Ela parecia muito mais merecedora do castigo do que a arte do poeta nos mostrou. Não é seria a condenação da fraqueza das mulheres em geral, mas a de um tipo volátil em particular.”[4]

Como Lessing aponta, na página impressa podemos tratar de questões muito delicadas de um modo mais ameno do que no palco, onde a encenação das mesmas questões nos revoltaria com muito mais intensidade. Imagine o horror e as lamentações se decidíssemos transpor para o palco as notícias dos jornais ou das revistas populares. Apenas ao imaginarmos tal adaptação percebemos que força da realidade pode minar o poder do palco. Por outro lado, estes fatos intensos podem gerar muito mais dificuldade. Por exemplo, o romancista pode escrever, “Então, em um silêncio quase inquebrantável, longas horas se passaram”. Mas nós, assistindo a isso no palco, a cena descrita no romance, sabemos perfeitamente que apenas poucos minutos se passaram. Devido a esta dificuldade surgida do senso temporal, várias estratégias foram utilizadas; os elisabetanos utilizaram-se do coro, há as nossas pausas entre o atos, cenas interpoladas, as quais mantém nossa atenção na história principal, e muitos outros recursos. Mas mesmo assim, com todos estes recursos do passado, é quase impossível em uma peça de um ato ou em apenas um ato, conseguir criar a impressão de que muito tempo se passou. Muitos esforços têm sido feitos para dramatizar um ato da peça de Stevenson, The Sire de Maletroi’s Door, mas todas fracassaram por causa da grande esforço necessário para fazer com que o lapso de tempo seja crível no palco. Não é difícil para o escritor fazer acreditar que entre o tempo da última noite e da manhã seguinte, Blanche de Maletroit perde totalmente seu amor por um homem e se apresenta pronta para casar-se com Denis de Beaulieu, que entrou na casa pela primeira vez na noite anterior. No palco, porém, a motivação e o diálogo, precisam convencer rápida e igualmente no mesmo momento em que a ação se desenvolve. A motivação, que parece muito mais fácil ao romancista, o quanto Blanche é seduzida por palavras atraentes ou pela ação sedutora de Denis, é quase impossível de se adaptar para o palco, pois estas ações, quando assistidas e ouvidas, devem ser para nós, igualmente atraentes e sedutoras. A dificuldade de lidar com o tempo nestas histórias têm levado a diversas tentativas ridículas para demonstrar a completa mudança de sentimentos de emoções de Blanche. Um jovem autor foi muito longe e fez com que o primeiro amor de Blanche fugisse com a empregada, fora do palco, o que é informado por um servo invejoso, movendo a última palha para a mudança de sentimentos de Blanche. Ainda que se defrontasse com uma dificuldade concreta, este artifício falhou, pois perverteu a idéia original. Quando tudo é dito efeito, esta maior dificuldade em lidar com o tempo em função de uma maior nitidez da apresentação teatral continua a ser um dos principais obstáculos no caminho do dramaturgo que pretende escrever uma sequência de acontecimentos históricos ou da evolução ou involução de um personagem. Novamente, salientamos as diferenças na técnica, potencializadas pela intensidade e vivacidade intensa inerentes ao palco.

Podemos dizer que o romance é um trabalho individual, a peça por sua vez, é um esforço cooperativo – do autor, do ator, do produtor, e ainda da própria audiência. Ainda que o dramaturgo escreva a peça, esta não pode ser apropriadamente julgada até o produtor produzi-la, os atores interpretarem os personagens e a audiência aprová-la ou não. É inegável que o diálogo da peça precisa ser muito diferente daquele utilizado no romance por causa dos gestos, das expressões faciais, da entonação, a movimentação geral dos atores podendo em larga escala substituir a descrição, a narração, e ainda partes dos diálogos do romance. Nós temos bom diálogo para um romance quando Cleópatra diz; “Eu irei parecer algo que não sou, Antônio irá ser ele próprio”. A ação e a caracterização são essenciais aqui. Na mesma cena, absorto em adorar Cleópatra, Antônio chora, quando um mensageiro o interrompe com uma notícia de Roma, “Reporta-me a soma!” Aqui nós precisamos da ação de quem fala, sua entonação, sua expressão facial, de toda a sua intensidade. Neste contexto, porém, isto é um diálogo dramático perfeito, já no romance, a clareza pode demandar muito mais do autor, pois o mesmo não sabe se o leitor o compreenderá corretamente uma entonação, ou um gesto que deve ser descrito acompanhando as palavras. Isto ocorre por que o diálogo dramático é um tipo de código escrito pelo dramaturgo, e que o ator irá traduzir ao público. Afinal poucas pessoas não treinadas podem falar algo sobre as diferenças entre uma folha de papel e uma peça no que diz respeito às emoções e aos sentimentos que estas transmitem. Por outro lado, alguém acostumado a ler peças pode facilmente irritar-se ao ler romances, pois estes dizem mais do que o necessário para aqueles mais sensíveis e acostumados. Apenas o diálogo para palco, sem o ator, estará incompleto. Tal como o diálogo para o palco está incompleto sem o ator, assim, também, a encenação precisa ser preenchida. Feito de maneira mais concisa possível, o dramaturgo deve não apenas comprimir o significado não apenas para o ator, mas também para o produtor. Ainda é necessário salientar que para realizar uma peça bem feita em todos os detalhes e com todos os seus subtextos, deve-se sugerir a disposição do e no palco, além de detalhes do cenário e da atmosfera. Para o produtor, sem dúvida, detalhes sobre o cenário, iluminação e outros elementos a serem utilizados são muito importantes. Tudo isto que o romancista competente oferece por si mesmo aos seus leitores. Um produtor competente é aquele que lê uma peça e compreende seus elementos fundamentais, com uma produção que nada mais é do que o seu melhor. A incompreensão de um produtor teimoso pode facilmente arruinar as possibilidades de uma peça bem escrita. A sensibilidade ou a acurada imaginação de um produtor podem, assim como o talento de um grande ator, revelar valores genuínos em uma peça, desconhecidos até mesmo pelo próprio dramaturgo. Isto demonstra claramente as diferenças entre uma peça produzida para o palco e a narração e a descrição em um romance.

O romancista, com tem sido constantemente apontado aqui, estabelece um acordo com um leitor individual, ou através de um leitor com um pequeno grupo. O que tem sido dito aqui, apenas deixa óbvio que o dramaturgo não trabalha diretamente no resultado final de seu trabalho, mas através de seus intermediários, o ator e o produtor. Mais do que isso, ele procura adicionar aquilo que lhe é individual, mas não como no caso do romancista, que conta apenas consigo próprio, mas por que o dramaturgo é uma unidade dentro de um grande grupo que faz o teatro. É claro que aqui não é o lugar para discutir a relação entre o dramaturgo e seu público, mas é inegável que a psicologia das massas no teatro não é exatamente a mesma coisa que a soma total das respostas individuais em relação a um incidente dramático. A psicologia individual e a psicologia das massas não são a mesma coisa. A reputação do romancista repousa muito mais na opinião de seus leitores individualmente. O dramaturgo precisa atingir não apenas um número considerável de pessoas, mas no mínimo, a maior parte da sua audiência. Ele precisa tocar sua audiência, mas não pelas emoções e reações individuais em um número considerável, mas pelas emoções que eles compartilham naturalmente, ou então pelas emoções que a sua arte pode fazê-los compartilhar. O dramaturgo que compreende apenas a psicologia individual ou a de pequenos grupos pode até escrever uma peça bem caracterizada, mas ele não poderá escrever um sucesso. Pelo menos não até ele ter estudado profundamente a psicologia das massas, e tenha aprendido a apresentar seus temas de modo a conquistar seu público conseguindo deles a resposta emocional desejada.

Obviamente, então, a partir de diversos pontos de vista, podemos afirmar que a grande arte do romancista e a grande arte do dramaturgo não são a mesma coisa. Uma opinião oposta tem se mostrado imprudente e tem levado muitos romancistas de sucesso a escrever peças desastrosas. Isto se aplica às tentativas de se reproduzir exatamente no palco os trechos mais populares dos romances de maiores sucesso dos quais foram feitas muitas adaptações, estas que se mostraram fracassos surpreendentes, tanto para seus autores como para aqueles que fizeram as adaptações. A complexidade da questão é muito bem resumida em uma carta de Edward Knobloch, autor de Kismet; “Eu tenho achado muito útil, quando solicitam que eu faça a adaptação de um romance; não ler a obra, mas sim pedir que outra pessoa o faça e me conte a história. Feito isto, todos os ornamentos desaparecem, e aquilo que é fundamental, a essência do romance, vem à tona. Se a história do romance não pode ser contada em cem palavras ou menos é por que não há nenhum drama nela. Se eu fosse escrever uma peça sobre Hamilton eu poderia ler uma enciclopédia, depois fazer o cenário, ler algumas biografias detalhadas. Mas deve-se tomar cuidado, muito conhecimento pode atrapalhar o trabalho. Estas são apenas algumas das opiniões que fazem que um conto seja melhor para ser adaptado do que muitos romances. As histórias de Shakespeare, por exemplo, eram sucintas, e deveriam ser capazes de despertar a imaginação, isso era tudo o que se exigia delas. Então, ai adiciona-se a mágica. Desde que o romance pudesse ser bem contado, partia-se para o cenário. Depois disso eu lia a novela. Haveria muito para alterar e somente alguns toques deveriam ser acrescentados. De acordo com esta sugestão, deveria se iniciar o planejamento de um cenário simples para a história que seria transposta para o placo. Então depois ele deveria transferir para um palco único, aquilo que é realmente essencial; e finalmente, com o auxilio do próprio autor, poder-se-ia reescrever trechos inteiros, dos quais ainda, poucos seriam utilizados, sendo que a partir destes, composições inteiramente novas surgiriam. Se tudo isso, geralmente fosse levado em conta, certamente o número de adaptações de sucesso teria sido muito maior.

Embora tudo isso seja verdade, mesmo que o dramaturgo e o romancista trabalhassem com elementos comuns da história, como os personagens e os diálogos, as diferentes condições sob as quais eles trabalham afetam sua forma de contar as histórias, a caracterização e os diálogos. As diferenças apresentadas sobre a maior rapidez, a maior concisão, a maior nitidez do teatro, com sua impessoalidade, sua natureza cooperativa, seu apelo grupal ao invés de individual, fundamentam uma técnica que estabelece clara distinção entre o teatro e o romance. Esta é a técnica que todos os dramaturgos em todos os períodos possuíam em comum. A arte de escrever peças não é a mesma que a de escrever romances. Ao longo dos séculos, ambas se distinguiram como técnicas muito diferentes.


“Mas”, isto poderia ser colocado; “tudo o que temos dito sobre as diferenças da peça e do romance nos mostra que a peça está muito mais circunscrita à representação verdadeira da vida. Não seria então, a dramaturgia uma arte da falsificação ao invés de uma arte comprometida com a verdade?” Um romancista francês, uma vez exclamou: “Tenho escrito romances por muitos anos, com alguns retornos em termos de reputação, mas pouco retorno em dinheiro. Agora, quando um jovem ator me ajuda a adaptar alguns de meus romances para o palco, essa arte bastarda imediatamente me torna possível comprar automóveis”. Robert Louis Stevenson escreveu no final de sua vida, ao Srº Sidney Colvin; “não, eu não irei escrever um peça para Irving nem para o diabo. Você não pode ver que o trabalho de falsificação que uma peça exige é, de todas as tarefas, a mais ingrata? E tenho feito isso a muito tempo, - e jamais algo aconteceu.”[5] problema com estes dois tipos de crítica eram que elas tinham uma visão de que o palco tornaria necessário moldar a vida, torcê-la, forçá-la quando a vida fosse representada. Embora seja verdade que a seleção e a compressão sejam as bases de todas as artes dramáticas, assim com de todas as artes pictóricas, já não é verdade, como era em meados do século XIX, quando os dramaturgos acreditavam que deviam moldar a vida às duras restrições do palco, aceitas como inevitavelmente rígidas. Hoje, compreendemos o palco com se deve, como algo plástico. Se e em algum momento o palco nos proibir uma exata representação da vida, pior para ele, que deverá ceder. Os talentos do autor, do produtor, do artista cênico devem trabalhar até que o palco esteja pronto para representar a vida com o autor a vê. Por muito tempo o apelo do dramaturgo foi; não “vamos adaptar a vida para o palco”, mas deveria ter sido; “vamos adaptar o palco para a vida a qualquer custo, seja da imaginação, seja pelo trabalho mecânico, tudo para a adequada representação da vida”. A arte de escrever para o teatro pode ser entendida como uma arte dedicada à fantasia ou comprometida com o realismo, mas para quem compreende isto corretamente, não irá confundi-la com outras artes, e trabalhando até compreender a apreender este aparente mistério, que ela nunca será uma arte da falsificação. Pelo contrário, é a arte que – além de servir como referência às outras artes, ainda move as massas, como nenhuma antes fez. Como disse Sr Arthur Piñero: “A arte do dramaturgo moderno – a mais incrível, fascinante e difícil – nada mais deve do que conseguir levar ao palco a mais verdadeira compreensão da vida, sem nenhuma falsificação”[6]




[1] CLOSET DRAMA – Ing., drama de gabinete; fr. Théatre pour La lecture; al. Lesendrama, Buchdrama; esp. teatro de câmara.
Peça teatral destinada antes à leitura que à representação, como as tragédias de Sêneca, ou os dramas e comédias de Alfred de Musset, Shelley, Byron, Keats e outros, ao longo do século XIX e princípios do XX, enquanto durou a voga do Romantismo e do Simbolismo. Pondo mais ênfase nos ingredientes poéticos, morais ou filosóficos que na ação, tais peças não satisfazem quando sobem ao palco, e comumente podem ser lidas como autênticos poemas, à semelhança das que movimento simbolista inspirou. Em vernáculo, servem de exemplo as obras de Machado de Assis (Teatro, 1863, etc), Graça Aranha (Malazarte, repr. 1911). Antônio Patrício (O Fim, 1909, Pedro, O Cru, 1918, Dinis e Isabel, 1919, D. João e a Máscara, 1924, Fernando Pessoa, (Poemas Dramáticos, 1946)(Dicionário de Termos Literários, MassaudMoisés) (Nota do Tradutor)
[2] Hamburg Dramaturgy, pp. 329-330. Lessing. Bohn ed.
[3] Robert Louis Stevenson: The Dramatist, p. 7. Sir A. Pinero. Chiswick Press, London.
[4] Hamburg Dramaturgy, pp. 329-330. Lessing. Bohn ed.

[5] Robert Lovit Steventan : the Dramatist, p. 80. Sir A. Pinero. Chiswick Press, London.
[6] idem

segunda-feira, 15 de novembro de 2010

O Despertar de um Homem (This Boy's Life) 1993


                    DWIGHT
            Aqui estou eu, vocês estão 
            com sorte pessoal!


Direção: Michael Caton-Jones


Roteiro: Robert Getchell do livro de Tobias Wolff


Elenco: Dwight (Robert De Niro), Tobias "Toby" Wolff (Leonardo DiCapri), Caroline Wolff (Ellen Barkin), entre outros.


O filme é legal, com boas interpretações. Há alguns aspectos que eu acho bem interessantes na apresentação do personagem do Dwight, como opr exemplo o lance do isqueiro, quando ele acende o cigarro de uma das amiga de Carol Wolff, a chama alta demonstrando uma personalidade forte e intensa, achei isto muito interessante.


Além do mais há duas coisas que devem ser notadas, uma delas é o fato de que Dwight faz tudo o que um pai faz para educar um filho, até então poderíamos nos indentificar com ele e dizer, "é isso ai"! Mas, Dwight ao ensinar Toby a boxear o ensina a dar golpes sujos e pegar o oponente despreparado. Além disso, fica com o dinheiro do moleque, pronto, o Dwight está acabado diante do público e não é possível mais ter nenhuma empatia pelo mesmo, nem no que ele faz de bom... a propósito, vocês poderiam dizer o que ele faz de bom,a  não ser contar vantgens?


Tropa de Elite 2 - O inimigo Agora é Outro (2010)




                     Ten Cor Fábio
            Porra Rocha, quer me foder? Então 
            me beija!



Direção: José Padilha


Roteiro: Bráulio Mantovani e José Padilha, do argumento de Bráulio Mantovani, José Padilha e Rodrigo Pimentel


Elenco: Ten - Cor Nascimento (Wagner Moura), Beirada (Seu Jorge), Clara (Tainá Müller), André Matias (André Ramiro), Ten-Cor Fábio (Milhem Cortaz), Rocha (Sandro Rocha), Fraga (Irandhir Santos), entre outros.

Já faz umas semanas que eu vi o filme, e confesso, além de estar muito empenhado em dar conta de "The Sopranos" eu estava numa baita crise com o cinema, pensando em desistir disto, trabalhar com outra coisa, mas enfim, isto não vem ao caso. Fui para o cinema cético, sem vontade e sem empolgação, mas faço questão de dizer que isto nada tinha a ver com o filme Tropa de Elite 2 em si, era uma neura minha mesmo.


Quanto ao filme em si, o que eu posso dizer é que eu gostei muito mais do primeiro. Eu pensei que deveria julgar o T2 pelas suas qualidades internas, por si próprio, mas descobri que é impossível falar sobre ele sem a baliza do primeiro, eles estão irremediavelmente ligados e este é o grande problema das continuações.


Há diversos pontos que eu poderia citar que justificam minha opinião, mas vou me ater a apenas alguns deles. 


Não gosto do personagem do Capitão - agora Tenente Coronel -Nascimento. Acredito que no um ele era mais interessante, ele era meio bom, meio mal, como qualquer um de nós. No dois ele já é um personagem mono-dimensional, ele é do bem e se perde um pouco nos labirintos da política, o que ocasiona de certo modo a morte de Mathias. Afinal, se Nascimento tivesse feito algo pelo Mathias quando ele precisou o Mathias não teria entrado numa fria, e consequentemente, morrido. Além do mais, Nascimento é incapaz de perceber o óbvio (ou pelo menos aquilo que é óbvio para o público, o surgimento das milícias) sozinho! Então temos a mão salvadora (e forçada) do Fraga, querendo nos mostrar como seria importante se ambos tivessem dados as mãos e superado suas diferenças. 


O personagem do Fábio era bem mais interessante no primeiro, no segundo ele vira um papagaio que tenta encaixar algum bordão, mas na verdade, acho que o Tropa 2 não tem bons bordões. No entanto Fábio tem um grande momento; ele num barco, bebendo e curtindo com uma gata, e reclamando, é algo muito comum de se ver no Brasil.


A impressão que eu tive foi de um filme muito mais preocupado com a questão das milícias, em documentar a mecânica social de como ela surge em função do vácuo de poder deixado pelo fim da hegemonia do tráfico nas favelas, do que com o desenvolvimento do drama de Nascimento.


É justamente por isso que o então Ten-Cor Nascimento não se encaixa, Nascimento precisa, por intermédio de seu filho, que Fraga lhe diga o que está acontecendo. É por isso que  Mathias não se encaixa, morre e não faz falta, não senti a morte do Mathias e ainda, por isso que o Fábio se torna impotente em relação a Rocha, uma nulidade sem graça e reclamão, o grande trio do primeiro filme se torna quase coadjuvante.


Acho que o filme reflete o problema que já encontramos no livro. A primeira parte é um assombro, um relato brutal do dia a dia de um personagem num campo de guerra, tendo de matar crianças e tendo de atender a mãe de suas vítimas na sequência. A segunda parte é uma descrição dos labirintos do estado corrupto brasileiro.


Por fim, há um momento, para mim, extraordinário; a cena onde os políticos e os policiais corruptos celebram a aliança com a população das comunidades é extraordinária, e num momento que eu não sei se queria ser didático, demonstra os "atalhos" que o poder do estado se utiliza para fazer o que deveria ser feito de modo legal, é como se o estado desse uma volta em torno de si mesmo para fazer o que deveria ser feito. Afinal quem são os homens das milícias? São homens do estado, são políticos e policiais que dão proteção às comunidades de modo ilegal quando deveriam fazê-lo legalmente. 


Mas de qualquer modo, gostaria de enfatizar a importância do filme e sua feliz escolha do tema e do que ele representou em nossa indústria cinematográfica, lembrando que, também, isto só se tornou possível em função dos filmes que o precederam, como Cidade de Deus e o próprio Tropa 1.


quinta-feira, 11 de novembro de 2010

Família Soprano (The Sopranos) Temporada 1, Episódio 2 - 46 Long


                    LIVIA SOPRANO
               Mate-me agora! Vamos, agora! Aqui,
               no peito, pegue a faca do presunto
               e me apunhale, aqui, aqui,
               agora, por favor! Isto me machucaria
               menos do que você acabou de dizer.
                    
                    TONY SOPRANO
               Você sabia, eu conheço idosos
               que são inspiradores!


Sinopse
Chris e seu amigo Brendan roubam um caminhão de uma empresa que paga proteção a Tio Corrado Jr Soprano. Jackie Aprile, o chefe da máfia em New Jersey, que se encontra frágil devido a um câncer, decide que Brendan e Chris devem pagar uma pesada restituição a Tio Junior. Revoltado com o julgamento de Jackie, a dupla decide desafiar a autoridade de Tony e roubar outro carregamento da mesma empresa. A mãe de Tony fica cada vez mais incapaz de cuidar de si própria, quase incendeia sua casa, atropela uma amiga velhinha. Então, após uma violenta discussão com  Tony, este decide interná-la em uma casa de repouso para idosos, que ela insite em chamar de asilo. Ao mesmo tempo, Tony manda seus homens achar o carro roubado do professor de seu filho, o que ele acredita que irá favorecer seu filho diante dos olhos do professor.

Direção: David Chase

Roteiro: David Chase

Elenco: Tony Soprano (James Gandolfini), Drª Jennifer Melfi (Lorraine Bracco), Carmela Soprano (Edie Falco), Corrado "Junior" Soprano (Dominic Chianese), Livia Soprano (Nancy Marchand), Christopher Moltisanti (Michael Imperioli), Antony Soprano Jr - A.J. (Robert Iler), Brendan Filone (Antonhy DeSando), entre outros.

Vou destacar dois aspectos.

O primeiro deles é o personagem de Livia Soprano. Vejam como ele é bem definido, não há uma fala apenas em que ela não esteja afirmando sua personalidade, ela reclama, chora, chantageia, faz drama, é um monstro.

O segundo diz respeito ao final do episódio, parece bobagem, parece simples, mas não é.

As cenas de terapia são muito boas, mesmo que Tony Soprano esteja deprimido, nós sabemos que ele realmente tem problemas e que não se trata de um chorão (o personagem de Livia demonstra isso em cada plano em que ela aparece).

Assim, no momento em que a Drª Melfi toca no ponto da questão, a mãe (e pense em quanto deve ser difícil falar da mãe de um italiano, principalmente do chefa local da máfia?)

Tony se irrita, esbraveja. Mas a psiquiatra diz que ele precisa aprender a lidar com sua raiva, descobrir qual a sua causa, saber como direcioná-la. Tony não dá ouvidos. 

Temos uma cena extremamente tensa e delicada, Tony deixa o consultório nervoso, alguns podem até mesmo achar que ele agrediria a médica ou que ainda mande alguém fazê-lo. Mas não, o que temos na sequência é uma cena leve, numa boate, música eletrônica, garotas semi-nuas dançando.

Então, o barman da boate, uma figura cômica, que não consegue utilizar as funcionalidades de um telefone, começa a ter problemas ao utilizar o aparelho, Tony está por perto e vê o rapaz com dificuldades. Pensamos que ele irá rir da situação, pois a mesma é engraçada, mas não, Tony vai até o sujeito e o agride com o aparelho e depois sai do local.

Vemos então que, temos um momento tenso, a situação do consultório, e depois um momento de descontração, onde pensamos que depois daquele sufoco da cena anterior teremos um pouco de relaxamento (afinal, não é para isso que uma boate de strip-tease serve?) Mas não, temos uma retomada da questão da cena anterior, do fato de Tony não saber de onde vem sua raiva e muito menos saber como controlá-la ou descarregá-la.





Para quem quiser dar uma lida no roteiro, clique AQUI!

Família Soprano (The Sopranos) Temporada 1, Episódio 1 - Piloto da Série (2)



                        TONY SOPRANO
                    (demonstrando raiva)
               O que aconteceu com o Gary Cooper? 
               O tipo forte e silencioso?


Sinopse
Tony Soprano procura uma psiquiatra depois de desmaiar na festa de aniversário do filho. Relutante para falar no começo, logo ele se solta e começa a falar sobre seu dia a dia estressante, sobre seu trabalho como "administrador de lixo", e sobre ser o chefe da máfia local. Das disputas internas de poder, dos rivais e da violência de seu trabalho, dos problemas familiares tão comuns, seus esforços em ser um homem bom e honesto e sobre a tristeza em ter visto os patinhos crescidos no seu quintal e na sua piscina aprenderem a voar e irem embora.


Direção: David Chase

Roteiro: David Chase

Elenco: Tony Soprano (James Gandolfini), Drª Jennifer Melfi (Lorraine Bracco), Carmela Soprano (Edie Falco), Corrado "Junior" Soprano (Dominic Chianese), Livia Soprano (Nancy Marchand), Christopher Moltisanti (Michael Imperioli), entre outros.


Muita coisa pode ser dita a respeito de "Família Soprano", desde a interpretação naturalista até a trilha sonora, mas como este é um blog de dramaturgia, vamos ao que interessa.


Agora que já vi todas as temporadas e conheço o arco dramático da série, para onde ela vai e o que acontece, sinto mais segurança para discorrer sobre o todo o texto. É claro que muitas lacunas surgirão no decorrer do seriado, mas muitas destas lacunas serão justamente o que irá preencher a suposta "falta de sentido" do último capítulo, mas isto é algo que irei falar em outro momento.


A princípio creio que um do problemas centrais da série é: o que é afinal ser homem nos dias de hoje? O que aconteceu com Gary Cooper? O tipo durão e reservado? O machão que topava qualquer parada, capaz de dizimar mais do que dois batalhões de alemães sozinho em Seargent York? Ou o Cary Grant de Only Angels Have Wings?


É justamente este o problemas que leva Tony Soprano a procurar ajuda psiquiátrica. Aqui temos então o nó da história. Como poderemos ver nos episódios posteriores, é justamente o fato de procurar a psicoterapia, - o que geralmente leva o indivíduo a adquirir mais conhecimento de si - um dos catalizadores que a motivar uma série de forças antagônicas contra Tony.


No que tange o autoconhecimento, iremos participar do seriado descobrindo quem Tony é, o que é mais importante, descobriremos isto junto com ele! E acompanharemos a jornada de Tony, semelhante a de Édipo, em busca da verdade a seu respeito.


Aqui temos um elemento importante. Afinal a forma como a Syuzhet organiza a trama adota um narrador, mas não uma narrador passivo, afinal, em diversos momentos, enquanto Tony narra sua história para a psiquiatra, o que nós vemos se desenrolando é justamente sua narrativa.


Esta estratégia, brilhantemente utilizada aqui não é novidade, poderia citar dezenas de filmes que a utilizam, desde A Testemunha de Acusação (Witness to Prossecution) de Billy Wilder, A Malvada (All About Eve) de Joseph L. Mankiewicz (Não confundir com o irmão dele, Herman J. Mankiewikcz que é o roteirista de Cidadão Kane), ou em filmes não tão antigos, como Entrevista com o Vampiro.


Em Witness to Prossecution, o que nos é apresentado é a narrativa de Leonard Vole (Tyrone Power) a respeito de sua história, de como conheceu Christine Vole(Marlene Dietrich) e de que é inocente de um crime. Esta narração é feita a Sir Wilfrid Robarts(Excepcionalmente interpretado por Charles Laughton), sendo que o que nos interessa é o fato de Sir Wilfrid Robarts ser um advogado. Um advogado que estuda o caso de Leonard para defendê-lo de um crime o qual Leonard afirma não ter cometido. Ou seja, narrativa diz respeito a Leonard contando os "fatos" para o seu advogado de defesa.

Em A Malvada (All About Eve), temos acesso à fábula devido ao uso da narrativa feita por Addison De Witt (George Sanders), sendo que o que legitima a opção pela narração, é o fato de De Witt ser simplesmente um crítico teatral, fato que ele apresenta em suas primeiras palavras.

Em Entrevista com o Vampiro também temos um narrador, e quem a realiza é Louis (Brad Pitt), o que há de interessante aqui é que a entrevista é feita para um jornalista, Daniel Maloy (Christian Slater).

Assim, o que temos são três interlocutores dos protagonistas que são profissionais que trabalham, de certo modo, com informação, e buscam informação sobre o protagonista ou aquele que fala e/ou conhece o protagonista. 

No caso de "The Sopranos", a interlocutora, ou seja, para quem o protagonista irá narrar a história, é uma psiquiatra, alguém que não irá apenas ouvir ou nos contar quem é o protagonista, mas que irá guiar o herói na sua jornada de auto-conhecimento e em transformação o que dá uma gigantesca dimensão ao personagem. Sabiamente, quando David Chase ofereceu o papel de Carmela Soprano a Lorraine Bracco, ela simplesmente recusou pediu o papel da psiquiatra por ser muito mais desafiador.

Então resumindo a ópera, podemos dizer que não é uma inovação utilizar um interlocutor para o protagonista para que ele conte sua história, isto é tão velho quanto a roda! O difícil é conseguir um interlocutor ativo, ou pior, não dar nenhum interlocutor ao protagonista e deixa-lo falando sozinho como um idiota auto-centrado.

Ainda no que diz respeito à narração, temos no piloto da série um grande momento. Quando a psiquiatra, prevendo que Tony iria lhe contar algo muito barra pesada, já estabelece alguns limites na relação entre ambos, dizendo que qualquer coisa dita por Tony, que configure um homicídio ou alguém tenha se machucado, ela será obrigada a se reportar às autoridades. Isso acontece quando Tony começa a falar sobre uma cobrança que ele e seu sobrinho iriam fazer. Quando ela diz isto, tomamos um banho de água fria e pensamos "Ferrou tudo, só vamos ficar ouvindo este cara se lamentar e chorar por causa dos seus problemas", mas o que acontece?

O que aparece como um problema para o roteirista é visto como  um desafio e resolvido da melhor maneira possível. Tony diz para a psiquiatra que ele e seu devedor foram apenas tomar um café e que tudo ficou resolvido da melhor maneira possível. E então vemos Tony quebrar a perna do devedor e ainda dar vários socos na perna machucada e no rosto.

Posso não estar muito certo do que vou dizer, mas isto ajuda e muito a estabelecer empatia com Tony Soprano, pois ficamos íntimos do mesmo, mais íntimos do que sua própria psiquiatra, pois sabemos que iremos compartilhar com ele seus segredos.

Bem, acho que pelo primeiro episódio é melhor eu parar por aqui.

Até o segundo episódio.




quinta-feira, 28 de outubro de 2010

Short Films Studies

Para quem estiver interessado em curta metragens e lê inglês (ou tem noções básicas e coragem de enfrentar o texto com um dicionário do lado, heheheheh) aqui segue um volume da Short Film Studies, da Intelect Books.

O bacana é que eles analisam três curtas bem interessantes. São eles 

The War is Over, de Nina Mimica.


The Village, de MILES GOODALL

Undressing my Mother, Ken Wardrop
http://www.venom.ie/undressing.mov